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«Os dias da Gestão Cinética»: Opinião de Paulo Moita de Macedo, Presidente Executivo da Caixa Geral de Depósitos

A realidade muda a uma velocidade inesperada, e as perspectivas que tomamos mudam radicalmente a forma como vemos o mundo à nossa volta.

O factor de imprevisibilidade, que sempre fez parte da nossa vida está, agora mais que nunca, majorado.

O mundo que se constrói à nossa frente é feito num tempo de constante desafio. E se enquadrarmos o futuro no contexto actual, de crise económica, maior ainda. As crises são cíclicas. A nossa missão é, tanto quanto possível, prevê-las, antecipá-las, mitigá-las e superá-las. Mais do que nunca, a capacidade de planeamento, de resolução de problemas complexos, o sentido de urgência aliado à resiliência e a capacidade de liderança são decisivos.

Nestes tempos recentes, que tanto nos desconstruíram e que criaram um mundo novo à nossa volta, muitas coisas se mantiveram em relação a um passado recente. Outras, obrigam-nos agora, cineticamente, a uma constante e ainda mais rápida adaptação. O nosso futuro, a empregabilidade, a nossa segurança no porvir, vão depender das competências. E de conceitos cada vez mais presentes: do reskilling, do upskill, dos soft skills. A aptidão para a permanente aprendizagem é-nos decisiva. Tornou-se claro, ao longo dos últimos meses, que a aptidão dos portugueses para o improviso e para as soluções inesperadas e criativas (o célebre “desenrascanço”)é um factor útil. Mas não é suficiente. É necessário um corpo teórico que confira acrescidas solidez e preparação ao que é um mero expediente.

O mundo será cada vez mais rápido e cada vez mais diversificado e é na universidade que começa a nossa preparação. Mas esse é só um primeiro passo.

Porque a capacidade para conquistar e manter o emprego desejado não depende só do que sabemos mas, sobretudo, da nossa aptidão para aprender. Ao longo da vida e de forma permanente.

Para sermos profissionais de excelência, temos que acrescentar valor, fazer a diferença e sermos criativos. Temos de ter a capacidade de adaptação a todos os cenários, mesmo os desfavoráveis, com inteligência emocional para antecipar soluções. E, nunca como agora, com capacidade de integrar o mundo tecnológico, capaz de dar resposta aos novos desafios.

Para aprender a gerir eficazmente, a gerir com obtenção de resultados, mesmo em tempos como os que se avizinham, é fundamental ter uma visão e um propósito de quem nos lidera e de quem nos dá respostas. Só possível de ser concretizado se tivermos as pessoas certas, garantindo o seu envolvimento e compromisso, para que, em equipa, sejamos capazes de gerar um trabalho consistente e rigoroso, porque todos os detalhes contam, e saber fazer bem o básico é tão fundamental, como saber inovar, ou como procurar fazer as escolhas certas.

E nem sempre é possível somarmos vitórias. Nos maus momentos, os profissionais testam a sua capacidade de resiliência, a sua f lexibilidade para se adaptarem a novas situações, o seu espírito crítico para se avaliarem, o seu grau de competitividade para quererem fazer melhor, o seu talento para se reinventarem.

O facto é que os tempos recentes nos puseram à prova. E demonstraram que as soluções para épocas de crise que tínhamos gizado funcionaram. Não eram simples esquemas teóricos ou fluxogramas coloridos. Mas sim programas de trabalho que foram postos em prática e que, com todas as limitações deste tempo, demonstraram ser adequados.

A Banca está melhor preparada para ajudar a economia nesta crise e é essa mensagem que transmite à Economia. Hoje, o custo de financiamento está com valores historicamente baixos: os 5,9% de taxa de juro do crédito à habitação, em 2008, rondam agora 1%. Nas empresas, a taxa de juro caiu para menos de metade do que era. Uma boa empresa, com um bom índice risco, em Portugal financia-se a um custo semelhante a uma boa empresa alemã e com poucas diferenças face a empresas espanholas ou francesas com as mesmas condições. O custo de financiamento para as empresas com idêntico rating, hoje, é harmonizado em termos europeus – cerca de 1/2 nas empresas ou cerca de 1/5 no crédito à habitação comparado com a última crise.

E esta crise foi atacada pelos governos europeus e pelos Bancos Centrais de uma forma bastante mais rápida que em qualquer crise anterior. Esta intervenção rápida é um factor distintivo e positivo, apesar de ainda haver muitas medidas que estão por negociar.

É nesta realidade que nos movimentamos. Entre a necessidade de aprendizagem permanente, o que é válido para todos nós, e os constrangimentos e a realidade do tempo presente. Vamos ter, em tempos de pandemia e nos que se lhe seguirem, de enfrentar os desafios, com armas que nos tornam capazes de vencer, porque são eles que nos fazem melhores pessoas e melhores gestores.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 173 de Agosto de 2020

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