Os desafios dos gestores no pós-pandemia

Por José Galamba de Oliveira, Presidente da APS

Vivemos, nos últimos 18 meses, tempos realmente desafiantes para os quais ninguém estava preparado. A pandemia era um risco que simplesmente não aparecia no radar dos gestores

A gestão de riscos é um pilar fundamental no processo de tomada de decisões e, até há 18 meses atrás, os riscos macroeconómicos, políticos ou geoestratégicos, a par dos novos riscos como das alterações climáticas ou cibernéticos, eram os riscos que os gestores conheciam, e que os enquadravam no processo de tomada de decisão, desenvolvendo formas mais ou menos complexas de mitigação de alguns desses riscos.

Esta pandemia, que a todos apanhou de surpresa, colocou-nos perante novas realidades, impactos muito assimétricos quer nos vários sectores de actividade, quer nos vários segmentos populacionais, originando uma crise sanitária, económica e social sem precedentes, trazendo consequentemente novos desafios à gestão quando tentamos perspectivar o nosso futuro no curto-médio prazo.

Seguramente que continuaremos a assistir a um mundo em mudança acelerada, agora a diferentes velocidades, consequências dos impactos assimétricos já mencionados. E os riscos descritos anteriormente continuam a ser factores-chave, ainda que com graduações novas, que condicionam o desenvolvimento económico e social, e para os quais os gestores devem dedicar tempo de análise.

Os riscos macroeconómicos são agora mais evidentes. Depois de tempos de estímulos gigantescos nos principais blocos económicos, a par de apoios excepcionais dos bancos centrais, iremos assistir a uma retirada gradual desses apoios, que poderá trazer desafios em termos de alguns indicadores macroeconómicos importantes – taxa de juro ou taxa de inflação, por exemplo. A pandemia abriu-nos também a porta a novos modelos de funcionamento do mercado de trabalho, potenciando muitos dos investimentos efectuados na última década na digitalização da economia em geral, mas que impacta muitos sectores económicos tais como os transportes, hotelaria e restauração, imobiliário, comércio de retalho, entre outros.

Os riscos pandémicos não desapareceram. O processo de vacinação atingiu percentagens elevadas nos países do primeiro mundo, o que permitiu um aliviar das medidas de contenção e uma quase normalização de muito sectores de actividade, mas a realidade é totalmente distinta nos países emergentes e em especial nos mais populosos, o que coloca o risco de novas variantes ou mesmo de novos vírus aparecerem, o que, num mundo muito globalizado em que vivemos, pode vir a colocar novos desafios relativamente à eficácia da vacinação.

Os riscos cibernéticos, já antes evidentes, tornaram-se agora muito mais importantes e devem constar no top da lista dos gestores. A utilização massiva das novas tecnologias, em especial nos períodos de confinamento, mas não só, abriu novas portas a redes muito organizadas, incluindo redes de terrorismo de estado ou patrocinado por estados, que buscam portas de entrada nos sistemas de informação das principais organizações e entidades públicas procurando, através de vírus, disrupções de alvos estratégicos. É hoje cada vez mais evidente que as próximas guerras, não serão guerras convencionais, mas sim guerras travadas na web. Não é por acaso que vemos cada vez mais países a institucionalizar um quarto pilar das suas Forças Armadas ou de Defesa – para além do Exército, Marinha e Força Aérea, contam agora com o pilar Cyber.

Por último, os riscos associados às alterações climáticas, para os quais estamos todos, enquanto sociedade, muito mais alerta e conscientes da necessidade de procurar soluções que permitam dar respostas a este risco sistémico. As alterações climáticas não são apenas um tópico a ser tratado no âmbito das iniciativas de responsabilidade social e corporativa das empresas, mas sim um tema central e estratégico que tem de ser tratado como parte integrante dos modelos de negócio.

Nunca como antes, foi tão importante incorporar o conceito da Sustentabilidade no dia-a-dia das empresas. Liderar historicamente implica, entender o contexto e os riscos associados e tomar decisões que permitam manter um equilíbrio permanente na gestão das expectativas dos quatro principais pilares de stakeholders nas empresas e nos negócios – clientes/ consumidores, colaboradores, fornecedores e accionistas – incorporando outros critérios nesse processo de tomada de decisão, nomeadamente os de índole social, ambiental e governança – que hoje conhecemos como critérios ESG – de modo a contribuir para o desenvolvimento de modelos de negócio sólidos, que perduram no tempo, que preservam o bem comum.

Na União Europeia está finalmente em curso a disponibilização de fundos significativos aos vários estados-membros, ao abrigo do aprovado Plano de Resiliência e Recuperação, um apoio importante para a recuperação económica, mas também para a consecução de objectivos estratégicos muito alinhados com as ansiedades e expectativas dos cidadãos europeus – uma Europa social, uma Europa verde e uma Europa digital.

Concluindo, esta pandemia causou contextos muito disruptivos na sociedade em geral que acabaram por ter uma influência decisiva no nosso futuro colectivo. Hoje, todos nós enquanto sociedade, atribuímos uma importância redobrada ao tema da saúde e bem-estar, ao mesmo tempo que tomámos todos uma maior consciência do factor incerteza, que estará sempre presente no nosso futuro, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos. E por isso damos hoje uma atenção redobrada a valores como a sustentabilidade, como um factor crítico para a preservação de um planeta que é de todos.

Há largos meses atrás, ainda numa época pré-pandemia, defendi nesta mesma coluna, a importância de uma gestão responsável, assente numa mudança evidente de paradigma nos modelos de desenvolvimento económico da nossa sociedade, mudança essa que obrigava o mundo da gestão a olhar para novos referenciais, incorporando novos critérios e objectivos na sua tomada de decisões, alinhados com os três grandes KPI dos gestores do século XXI: performance, propósito e pessoas. Se alguma coisa nos ensinou esta pandemia, é que os gestores hoje, liderando organizações, instituições e negócios, têm uma responsabilidade acrescida e incontornável para a consecução deste objectivo, uma sociedade sustentável com desenvolvimento económico e social para todos.

Este artigo foi publicado na edição de Setembro de 2021 da revista Executive Digest.

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