O novo agravamento das tensões no Estreito de Ormuz ameaça provocar outra crise de abastecimento de petróleo, mas agora sem as reservas que ajudaram a proteger a economia mundial durante a primeira fase da guerra entre os Estados Unidos e o Irão.
A rutura da trégua entre Washington e Teerão voltou a paralisar grande parte do estreito, interrompendo a breve recuperação dos carregamentos através de uma rota por onde passa habitualmente cerca de um quinto do petróleo mundial.
“Queimámos todas as almofadas que tínhamos. Tudo. Agora desapareceu”, afirmou um operador ao ‘Financial Times’, resumindo a preocupação que regressou aos mercados energéticos.
A Agência Internacional de Energia revelou que os países-membros já libertaram quase três quartos dos 400 milhões de barris previstos no plano de emergência anunciado em março. Restam apenas algumas semanas até que esse petróleo suplementar deixe de chegar ao mercado.
Petróleo sobe 11% numa semana
O preço do Brent tinha caído de cerca de 100 dólares por barril, aproximadamente 87,67 euros, para pouco mais de 70 dólares, perto de 61,37 euros, depois do anúncio da trégua.
A inversão foi rápida. O Brent ultrapassou os 87 dólares na terça-feira, cerca de 76,28 euros, atingindo o valor mais elevado em mais de um mês. Na quarta-feira, seguia próximo dos 84,50 dólares, aproximadamente 74,08 euros, acumulando uma valorização semanal de 11%.
As conversões são aproximadas e têm por base a taxa de referência do Banco Central Europeu de 15 de julho, segundo a qual um euro correspondia a 1,1406 dólares.
Durante os quatro meses de encerramento anteriores ao acordo entre os Estados Unidos e o Irão, governos ocidentais e asiáticos recorreram praticamente a todas as medidas disponíveis para evitar uma crise económica mais profunda.
Foram libertados volumes recorde das reservas estratégicas, a China reduziu para metade as importações de petróleo e obrigou empresas estatais a utilizar combustível armazenado. A Casa Branca chegou também a admitir uma possível intervenção nos mercados de futuros caso os preços escapassem ao controlo.
Apesar daquela que a Agência Internacional de Energia classificou como a maior perturbação de abastecimento da história, o Brent atingiu um máximo de 126 dólares por barril em abril, aproximadamente 110,47 euros, permanecendo abaixo do seu recorde histórico.
“Agora temos quase nada”
Antes do início da guerra, o mercado dispunha de cerca de 400 milhões de barris em inventários excedentários, sem contar com as reservas estratégicas dos governos.
“Agora temos quase nada”, alertou Amrita Sen, diretora de informação de mercado da Energy Aspects, citada pelo ‘Financial Times’. A especialista considera que a confiança na manutenção dos fluxos através de Ormuz está agora a ser severamente testada.
Caso o novo bloqueio dure vários meses, não é claro de onde poderá vir o petróleo necessário para compensar a quebra. Alguns operadores suspeitam que o Irão pretende manter a pressão sobre Donald Trump até às eleições intercalares de novembro.
O impacto já chegou aos consumidores. Desde o início da guerra, os preços da gasolina e do gasóleo têm subido mais rapidamente — e descido mais lentamente — do que o petróleo bruto.
Gasóleo europeu dispara 14%
O mercado dos combustíveis refinados está particularmente pressionado. A situação agravou-se depois de ataques ucranianos de longo alcance terem atingido o sistema de refinação da Rússia, o segundo maior exportador mundial de gasóleo.
A Agência Internacional de Energia alertou para um possível défice de gasolina e gasóleo, enquanto os futuros grossistas do gasóleo na Europa subiram 14% numa semana.
Os países ocidentais, que reduziram as compras de combustível russo depois da invasão da Ucrânia, enfrentam agora a concorrência de mercados como a Turquia e o Brasil. Estes países continuaram a comprar gasóleo russo, mas também procuram alternativas devido às perturbações na produção.
Os receios de que as companhias aéreas pudessem ficar sem combustível para aviões ainda não se concretizaram. As refinarias ajustaram a produção e algumas transportadoras reduziram voos menos rentáveis.
Ainda assim, os inventários deverão cair durante o pico da procura no verão e serão difíceis de recompor antes da época de viagens do inverno.
Superpetroleiros atacados em Ormuz
A descida do petróleo após a trégua resultou parcialmente de um excesso temporário de oferta. Os produtores do Golfo aproveitaram a reabertura de Ormuz para esvaziar depósitos e enviar milhões de barris para o mercado.
Só a Adnoc, petrolífera estatal dos Emirados Árabes Unidos, colocou à venda 84 milhões de barris. A empresa organizou ainda um sistema de transporte através do estreito para abastecer superpetroleiros que continuavam receosos de entrar no Golfo.
Dois desses navios, cada um com capacidade para cerca de dois milhões de barris, foram atacados pelo Irão na terça-feira enquanto atravessavam Ormuz. Pelo menos um tripulante morreu.
Alguns produtores conseguiram criar rotas alternativas. A Arábia Saudita aumentou as exportações pelos portos do mar Vermelho para cerca de cinco milhões de barris diários, abaixo dos sete milhões que enviava através de Ormuz antes da guerra.
Países como o Iraque e o Kuwait, contudo, permanecem praticamente isolados, por disporem de poucas alternativas para escoar a produção.
Mar Vermelho pode agravar crise
Os operadores acompanham também o mar Vermelho, depois de ataques dos houthis contra a Arábia Saudita em resposta a um bombardeamento sobre o aeroporto de Sana.
O grupo apoiado pelo Irão conseguiu interromper grande parte da navegação no mar Vermelho durante mais de um ano, a partir do final de 2023.
O regresso dessa campanha poderia comprometer o acesso ao porto saudita de Yanbu, a principal rota de exportação de petróleo da Arábia Saudita fora do Estreito de Ormuz.
“O mercado estava a antecipar uma trajetória otimista para os fluxos, mas é agora evidente que essa possibilidade já não está em cima da mesa, pelo menos até existir uma nova ronda diplomática”, afirmou Joel Hancock, analista sénior de matérias-primas do Natixis.
Sem um novo acordo, a economia mundial enfrenta uma combinação particularmente perigosa: uma das suas principais rotas petrolíferas novamente bloqueada, reservas de emergência perto do fim e mercados de gasolina e gasóleo já sob forte pressão.

















