Ormuz fechado, petróleo em alta: como os EUA se tornaram os grandes vencedores da crise energética

Crise no estreito penaliza os países importadores, sobretudo os mais pobres, que enfrentam preços mais elevados e maior pressão sobre o abastecimento. Mas também atinge exportadores habituados à prosperidade

Francisco Laranjeira

O bloqueio do Estreito de Ormuz está a redesenhar o mercado mundial da energia e a colocar os Estados Unidos numa posição de vantagem, num momento em que os países do Golfo Pérsico enfrentam fortes limitações para exportar petróleo e gás, escreve o ‘El País’.

A crise penaliza os países importadores, sobretudo os mais pobres, que enfrentam preços mais elevados e maior pressão sobre o abastecimento. Mas também atinge exportadores habituados à prosperidade, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Bahrain, que veem agora os seus canais de venda cortados ou fortemente condicionados.

Do outro lado estão os produtores fora da região, que conseguem vender mais e a preços mais altos. Entre todos, destacam-se os Estados Unidos, que em pouco mais de uma década passaram de uma forte dependência energética para uma posição dominante no petróleo e no gás.

Os dados mais recentes da Administração de Informação Energética dos EUA mostram que as exportações americanas de crude atingiram um novo recorde: seis milhões de barris por dia, praticamente o dobro do registado antes dos bombardeamentos americanos e israelitas contra Teerão.

Se forem somadas as exportações de petróleo bruto e de combustíveis refinados, o total chega aos 14 milhões de barris por dia, também um máximo histórico. O aumento é puxado sobretudo pela procura da Europa e da Ásia, obrigadas a substituir parte do petróleo, gasóleo e querosene que antes chegavam do Golfo Pérsico.

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Golfo travado, petróleo americano em vantagem

Pelo Estreito de Ormuz passa normalmente cerca de um quinto do petróleo bruto e do gás natural liquefeito do mundo. Com a passagem bloqueada, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Iraque ainda conseguem transportar parte da produção por oleoduto, mas o Kuwait e o Bahrain ficam praticamente sem capacidade de vender crude no mercado global.

Esse vazio está a ser preenchido pelos Estados Unidos. Para as empresas americanas de energia, a crise representa um ganho inesperado: vendem mais, ganham quota de mercado e beneficiam de preços mais elevados.

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O problema é que o custo também chega aos consumidores. Nos Estados Unidos, tal como no resto do mundo, abastecer o carro ou comprar um bilhete de avião tornou-se mais caro. Segundo o ‘El País’, o preço médio da gasolina ronda os 4,5 dólares por galão, pouco mais de um euro por litro.

A revolução que mudou os Estados Unidos

A atual força energética americana seria impensável há pouco mais de dez anos. Até 2014, os Estados Unidos praticamente não exportavam petróleo.

A viragem começou com o fraturamento hidráulico, técnica que permite extrair petróleo e gás de formações rochosas ricas em xisto. O resultado foi uma transformação profunda: os Estados Unidos tornaram-se, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, exportadores líquidos de petróleo bruto.

Ira Joseph, investigador do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, resume o efeito imediato da crise: os principais concorrentes dos EUA estão limitados, os preços subiram e os produtores americanos estão a beneficiar de um enorme ganho inesperado.

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Mas o especialista deixa um aviso. A longo prazo, a eletrificação dos transportes deverá reduzir o consumo de petróleo, enquanto o crescimento das renováveis e das baterias pode travar a procura por gás natural liquefeito.

Qatar perde terreno no gás

A vantagem americana também se estende ao gás natural. Em abril, as exportações dos Estados Unidos atingiram um novo máximo, beneficiando das dificuldades do Qatar, um dos maiores fornecedores mundiais de gás natural liquefeito.

Com Ormuz bloqueado, Doha perdeu grande parte da capacidade de colocar gás no mercado internacional. A situação agravou-se depois de ataques iranianos contra instalações energéticas do país, em resposta aos bombardeamentos americanos e israelitas.

O complexo de Ras Laffan, uma das infraestruturas centrais do gás qatari, foi danificado. Segundo cálculos da Qatar Energy, a ofensiva pode ameaçar quase um quinto da capacidade de exportação do país nos próximos cinco anos.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos reforçam a sua posição. Analistas do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira sublinham que o país já vende mais gás natural liquefeito do que qualquer outro e que a sua capacidade de exportação deverá praticamente duplicar até 2030.

Energia como arma geopolítica

A transformação energética americana tem impacto económico e estratégico. A indústria dos EUA beneficia de gás natural mais barato do que muitos concorrentes internacionais, enquanto Washington ganha margem de influência sobre aliados e rivais.

Donald Trump tem explorado politicamente esta vantagem, apresentando os Estados Unidos como uma superpotência dos combustíveis fósseis e recuperando o slogan “perfura, baby, perfura”, em contraste com a aposta nas renováveis da Administração Biden.

A crise de Ormuz reforça essa narrativa. Os Estados Unidos surgem agora como fornecedor indispensável num momento em que parte relevante da energia do Golfo ficou bloqueada.

Mas essa dependência também levanta riscos para a Europa e para a Ásia. Na era Trump, Washington está longe de ser visto como um parceiro previsível, e a nova centralidade energética americana pode transformar-se também num instrumento de pressão política.

No curto prazo, os Estados Unidos estão a ganhar com a crise.

No longo prazo, a pergunta é quanto custará ao mundo depender cada vez mais da nova superpotência fóssil americana.

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