Orbán sai, Putin agradece? O novo líder da Hungria pode ser ainda mais útil ao Kremlin

Depois de anos a funcionar como o aliado mais incómodo de Moscovo dentro da União Europeia, o primeiro-ministro húngaro caiu nas urnas e deixou para trás a imagem de uma derrota política para Vladimir Putin

Francisco Laranjeira

O novo líder da Hungria pode dar a Putin aquilo que Orbán já não conseguia

À primeira vista, a derrota de Viktor Orbán parecia uma má notícia para o Kremlin. Depois de anos a funcionar como o aliado mais incómodo de Moscovo dentro da União Europeia, o primeiro-ministro húngaro caiu nas urnas e deixou para trás a imagem de uma derrota política para Vladimir Putin. Mas o ‘The Independent’ traça agora um cenário mais desconfortável para Bruxelas e para Kiev: o novo líder húngaro, Péter Magyar, pode acabar por se revelar um aliado ainda mais útil ao presidente russo do que muitos imaginavam.

A razão não está numa afinidade ideológica tão explícita como a de Orbán, mas numa combinação mais pragmática e potencialmente mais eficaz: apoio condicionado à Ucrânia, defesa aberta do regresso do petróleo russo e disponibilidade para manter canais energéticos vitais para Moscovo. Segundo o ‘The Independent’, Magyar mostrou-se pronto para levantar o veto húngaro a um empréstimo europeu de 90 mil milhões de euros crucial para a sobrevivência económica de Kyiv, mas com uma condição: que os abastecimentos de petróleo russo para a Hungria fossem retomados através do oleoduto Druzhba.

É precisamente aqui que a leitura se complica. Orbán era um aliado previsível de Putin, mas também um problema fácil de identificar e isolar politicamente. Magyar, pelo contrário, chega ao poder com uma imagem mais aceitável para parte da Europa, ao mesmo tempo que mantém uma exigência essencial para o Kremlin: preservar fluxos energéticos russos para o coração da União Europeia. Isso torna-o, na prática, potencialmente mais perigoso para a estratégia europeia de desligamento energético de Moscovo.

O caso do oleoduto Druzhba ajuda a perceber porquê. A infraestrutura foi afetada em janeiro por um ataque com drones russos a uma estação de bombagem perto de Lviv, desencadeando uma disputa diplomática em que Hungria e Eslováquia acusaram a Ucrânia de não reparar o sistema por razões políticas. Perante a urgência de fazer passar o apoio financeiro a Kiev, Bruxelas acabou por prometer ajuda técnica e financeira para reabrir a rota — apesar de isso colidir frontalmente com o objetivo europeu de abandonar o petróleo russo até ao fim de 2027.

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Ou seja, o novo quadro político em Budapeste não significa necessariamente menos espaço para Putin. Pelo contrário: se Magyar conseguir apresentar as suas exigências como realismo económico, e não como bloqueio ideológico, poderá tornar mais difícil a resistência europeia a novas concessões energéticas à Rússia. Orbán fazia esse trabalho pela confrontação. O seu sucessor pode fazê-lo pela normalização. Essa é a nuance que torna o cenário mais sensível.

Há mais sinais nessa direção. Magyar também prometeu um referendo sobre a eventual adesão da Ucrânia à União Europeia, um compromisso que, na prática, pode transformar-se numa nova forma de veto político. Em vez de se colocar frontalmente contra Kiev como Orbán fazia, o novo poder húngaro pode embrulhar a mesma resistência numa lógica de consulta popular e defesa do interesse nacional. Para Moscovo, o efeito pode ser semelhante — ou até mais útil, porque menos ruidoso e mais difícil de atacar.

Tudo isto ganha ainda mais peso num momento em que a energia volta a reposicionar-se no centro da guerra e da diplomacia. O texto do ‘The Independent’ lembra que a instabilidade no Médio Oriente deu novo fôlego ao Kremlin, com preços mais altos do petróleo, maior procura por gás natural liquefeito russo e espaço para Moscovo recuperar receitas. A ‘Reuters’ noticiou, aliás, que as importações espanholas de GNL russo quase duplicaram em março face ao mesmo mês do ano passado, atingindo 9.807 GWh, um máximo histórico mensal.

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É esta a ironia estratégica que percorre todo o texto: a Europa quer enfraquecer a máquina de guerra russa, mas continua a depender, em momentos críticos, de energia que ajuda a financiá-la. E a Hungria pode voltar a ser a peça central dessa contradição. Com Orbán, essa posição era apresentada como desafio político. Com Magyar, pode ser apresentada como necessidade económica. Para Putin, essa mudança de embalagem pode ser uma vantagem.

Isso não significa que o Kremlin esteja confortável. O ‘The Independent’ sublinha que a economia russa continua sob forte pressão, com membros da elite a alertarem publicamente para sinais de colapso, inflação acumulada elevada e um esforço de guerra que absorve uma fatia enorme do orçamento. Mas mesmo uma Rússia economicamente pressionada beneficia quando encontra, no interior da União Europeia, líderes dispostos a preservar rotas de petróleo e gás ou a travar passos decisivos de integração da Ucrânia no bloco europeu.

No fim, a questão já não é saber se a saída de Orbán enfraqueceu Putin. A questão mais incómoda é outra: se o homem que chegou para encerrar um ciclo em Budapeste pode, afinal, oferecer ao Kremlin uma versão mais eficaz, mais aceitável e mais difícil de combater da mesma política. É essa hipótese que faz do novo líder húngaro um problema talvez ainda maior para a Europa do que aquele que parecia ter ficado para trás.

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