Por: Carlos Gomes da Silva, CEO Galp Energia
Vivemos um momento sem precedentes na História da humanidade. Não é de mais repetir esta ideia, porque ela enquadra tudo o que hoje pensamos, discutimos ou projetamos: não há ensinamentos ou aprendizagens passadas que nos permitam ter nesta fase certezas absolutas. Mas poderemos ler na história outros exemplos que revelam bem os impactos e quão importante é planear com dimensão estratégica e longe do “curto prazismo” em que as nossas vidas facilmente se enleiam. Qualquer reflexão que hoje façamos está condicionada, por isso, a elevados graus de incerteza, alimentados por um inimigo silencioso, invisível e acrescentaria imprevisível.
Seja por não termos ainda certezas sobre a duração dos estados de emergência decretados por todo o Mundo, seja por desconhecermos a existência, ou não, de outras vagas desta ou de outras pandemias, ou por não vislumbrarmos no horizonte a ansiada aplicação de vacinas ou terapias que permitam combater a infeção.
No plano económico vivemos um teste sem paralelo à resiliência das empresas, das suas pessoas, das suas operações e das linhas estratégicas definidas para as suas atividades.
Na Galp – como qualquer multinacional com um portefólio diversificado –, as estratégias, apesar de dinâmicas, têm forçosamente de apontar caminhos de médio e longo prazo.
Ainda é cedo para percebermos o impacto estrutural que esta crise sanitária, económica e social terá, mas existem tendências que não vemos, para já, que possam ser alteradas. Pelo contrário, algumas linhas estratégicas da Galp poderão até sair reforçadas no pós-crise. Nomeadamente a transição para uma economia de menor intensidade carbónica, com o desenvolvimento de novos modelos de negócio associados à economia sustentável combinando ecossistemas tecnológicos, digitais e de inovação.
Aliás, a alteração de hábitos de consumo e de comportamentos que resultarão desta experiência coletiva está a pôr em evidência o comércio e as plataformas digitais bem como a importância da produção e da logística. A retoma de fronteiras há muito descontinuadas confere sinais de que a solidariedade e a humanização da sociedade e da economia têm que encontrar um equilíbrio entre o empreendedorismo e o sentido de urgência de planear e decidir hoje a pensar no futuro. Aliás, uma dimensão muito valorizada na vida empresarial e usualmente desconsiderada no plano coletivo.
Dito isto, sabemos que o contexto geral que as empresas estão já a enfrentar em resultado deste epifenómeno tem um grau de exigência extremo que se agravará a cada dia que passa. Cada dia conta. E todos somos importantes nesta cruzada e no regresso ao novo normal que exige uma estratégia concertada à escala global, usando responsabilidade e transparência.
É forçoso sublinhar que as empresas – as PME, as micro-empresas ou grandes corporações – são a rede de segurança das famílias e o coração da economia. São elas que garantem o emprego, os rendimentos e a liquidez para o bem-estar das pessoas. Por isso, aquilo de que o tecido empresarial mais necessita neste momento é de medidas urgentes, claras e de acesso fácil e desburocratizado, para que essa rede de segurança não se deslace quando as pessoas mais precisam dela. Naturalmente que este sentido de urgência não é compatível com a arqueologia de eventos e decisões que na pós realidade venhamos a criticar com a sabedoria do entretanto ocorrido. Exige coragem e arrojo, ao mesmo tempo que usamos pragmatismo e nos orientamos para a eficácia temos que mitigar o potencial uso indevido de instrumentos e soluções.
Empresas como a Galp têm de continuar a cumprir o seu papel social, solidário e de catalisador da economia. Seja pela adoção de medidas como a suspensão de cortes de fornecimento de energia ou a disponibilização de planos de pagamento faseado para clientes afetados pela crise ou através de apoios aos sistemas de saúde, como rede complementar dos serviços públicos de que são exemplos a oferta de ventiladores e a cooperação na execução de testes com o SNS, o apoio ao INEM e às IPSS, entre muitos outros. A responsabilidade nunca pode estar suspensa, sobretudo quando a ‘vida normal’ o está.
Estamos a acudir ao presente. Mas também a olhar para o futuro.
A estratégia de regresso ao trabalho no terreno, por exemplo, requer uma preparação cuidada e articulada. Deve ser faseada, usar protocolos simples, eficazes e acessíveis (universais). Porque, não nos iludamos, a ‘normalidade’ pela qual todos ansiamos não significará o regresso da vida de antes. Viveremos seguramente um ‘novo normal’, onde os modelos de negócio das empresas terão de ser adaptados a um novo contexto que ainda perdurará. E uma vez ultrapassada toda esta experiência multigeracional é importante que não voltemos imediatamente à posição de conforto. Temos a obrigação de tirar consequências e sermos exigentes. É uma causa transgeracional e da humanidade.
A Galp está a fazer a sua parte nesta caminhada, preparando o futuro enquanto mantém a continuidade da sua atividade. Os nossos postos, as nossas redes de gás, os nossos serviços, as nossas pessoas, a nossa energia, continuam ao serviço de Portugal e dos portugueses. E estamos convictos de que assim continuará a ser quando ultrapassarmos o maior desafio das nossas vidas.
O artigo foi escrito a 2 de Abril 2020




