Reparar e preparar a Europa para a próxima geração, é assim que a união europeia vê o ambicioso plano de recuperação Europeu.
A União Europeia procura angariar 750 mil milhões de euros nos mercados através de dívida comum para adicionar ao orçamento. 500 mil milhões seriam distribuídos a fundo perdido, enquanto que o restante seria alocado através de empréstimos com condições favoráveis. Isto seria um primeiro passo em direção a um orçamento comum, inclusive existe a possibilidade de o valor possivelmente ser pago através de impostos comuns.
50% do valor a distribuir a fundo perdido seriam distribuídos por Espanha, Grécia e Itália. Portugal estaria numa zona intermédia da distribuição – fator que deve garantir o apoio do governo. No entanto, devemos estar preparados para meses de negociações que vão limitar a disponibilidade imediata dos fundos, na altura que são mais necessários.
Basta recuar uns anos para 2008, em que a crise financeira ameaçava destruir o bloco e a resistência dos países mais ricos não permitia sequer discussões em torno do tema “dívida comum”. O que mudou foi que a destruição dos fundamentais, a nível económico, é de tal forma devastadora que a própria Alemanha, grande opositora de emissão de dívida comum, lidera o plano em conjunto com a França, fator determinante para ter alguma hipótese de passar. Emmanuel Macron e Angela Merkel defendem que permitir uma recuperação a dois ritmos iria aumentar o fosso das desigualdades no bloco, fator que iria limitar estruturalmente o comércio e a gestão da União.
A ser aprovado, teria um impacto financeiro importante, mas acima de tudo seria uma declaração política do bloco sem precedentes. Seria o mais próximo que alguma vez Bruxelas teve de se assemelhar a um governo central.
A resistência vai ser total. Holanda, Dinamarca, Áustria, Bélgica, Suécia, Irlanda, Hungria e Lituânia mostram grande fúria, quer seja pela emissão de dívida comum, como pela divisão que consideram não estar direcionada para recuperar das causas da pandemia. Parece impossível que se consiga um acordo antes de Setembro como ambicionam vários membros da comissão. Isto pode ser a diferença entre a recuperação na Europa e os outros grandes blocos. Será um grande teste ao compromisso, mas o dinheiro apenas deverá começar a ser distribuído no próximo ano, isto levanta sérias dúvidas sobre como vão gerir a segunda metade de 2020. Será através de compra de dívida por parte do banco central europeu? Neste momento já são vários países com o rácio PIB/dívida acima dos 100% e isto faz com que o cenário para as taxas se mantenha de grande pressão.
Eduardo Silva, analista XTB


