Opinião. O papel da Academia para potenciar o impacto das organizações sociais

Por: Bruna Riboldi, PhD – Project Manager do Data Science Knowledge Center, Nova SBE

Historicamente a Academia tem contribuído para o ecossistema de impacto social e ambiental de variadas formas, nomeadamente ao incluir essas organizações como estudos de caso em investigações, em todos os seus diferentes níveis. Para além dessa reflexão científica em casos específicos, tem sido notório um crescimento consistente do estabelecimento de programas de formação e workshops nos mais diferentes âmbitos (propósito, governança, sustentabilidade para citar alguns exemplos) direcionado ao empoderamento instrumental do setor. Mais recentemente está a surgir uma nova dimensão nesse âmbito de apoio, que são as ferramentas de conhecimento, de acesso aberto, para apoiar estar organizações a melhor cumprirem a sua missão no dia a dia.

No início do ano, publicámos, no Data Science Knowledge Center, um relatório acerca das práticas atuais de tomada de decisão baseada em dados, nas organizações sociais portuguesas – nomeadamente instituições com atividades ligadas ao serviço social (centros sociais e lares), ou outras atividades relacionadas com as áreas da educação, saúde, proteção ambiental e bem-estar animal ou cultura, entre outras. A pesquisa foi motivada pela necessidade de aprofundar o entendimento da tomada de decisão baseada em dados entre as organizações de impacto social em Portugal. Mas apenas reportar não é suficiente. Por esse motivo, o relatório inclui para além da visão geral e principais conclusões da pesquisa, uma breve introdução aos princípios de Ciência de Dados direcionados ao setor social e um “roteiro” de como as organizações de impacto podem começar a adotar a tomada de decisão baseada em dados nas suas próprias organizações.

Outro papel importante da Academia neste contexto é, a partir da construção de conhecimento, a divulgação a toda a sociedade acerca das questões sensíveis ao setor e às organizações que dele fazem parte. Como exemplo, podemos citar os relatórios desenvolvidos em parceria com o Nova SBE Leadership for Impact Knowledge Center, para aferir o Impacto da COVID-19 e do Estado de Emergência nas organizações sociais de Portugal. O objetivo destes estudos partiu da necessidade de identificar os principais impactos negativos de que as organizações deste setor foram alvo – e ainda estão a ser –, de forma a que os mesmos sejam divulgados junto da Sociedade em geral, dos Media, do Governo, dos Empreendedores, dos Voluntários, dos Doadores, dos Financiadores, entre outros, para que o devido apoio e soluções possam ser criados (Report1 e Report2).

Um trabalho importante de divulgação e consolidação da informação acerca da Economia Social tem vindo a ser feito pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Em parceria com a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, o INE desenvolve a Conta Satélite da Economia Social portuguesa que disponibiliza informação estatística atualizada acerca da sua dimensão económica e das suas principais características. O estudo divulga dados agregados acerca deste setor, que atualmente representa 3% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) em Portugal (Conta Satélite da Economia Social 2016, INE). Mas os relatórios com dados agregados não permitem, por exemplo, a visualização dos dados em detalhe, nem permitem que um potencial beneficiário ou voluntário identifique a organização social mais próxima da sua morada e que atenda às suas necessidades ou esteja alinhada com os seus objetivos.

Nesse sentido, acreditamos que a Base de Dados Social, plataforma desenvolvida pelo Data Science Knowledge Center no âmbito da Social Equity Initiative, venha completar uma lacuna relevante no âmbito da Economia Social portuguesa, como uma ferramenta que pode auxiliar as organizações de impacto a fazerem um melhor uso dos seus dados. O projeto tem por objetivo a partilha de informações de forma aberta e desagregada acerca do setor social português. Ao navegar na plataforma, o utilizador pode fazer a pesquisa por filtros específicos, alinhados com os seus interesses pessoais. Acreditamos que a Base de Dados Social terá impacto em várias partes interessadas deste setor, começando pelos beneficiários e suas famílias, com a possibilidade de identificação de respostas sociais próximas à zona de residência, para o setor social conseguir ser mais eficiente, conseguir estabelecer parcerias, e até para financiadores privados e empreendedores sociais conseguirem definir melhor as suas iniciativas. Sob a perspetiva da Academia, servirá como recurso para potenciar a investigação acerca do setor, com uma base de dados única e cada vez mais rica acerca da Economia Social.

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