A Associação dos Ucranianos em Portugal (AUP) enviou uma carta ao ministro da Presidência, António Leitão Amaro, a pedir que o Governo suspenda o apoio financeiro concedido a refugiados ucranianos que, apesar de terem obtido proteção em território português após a invasão russa, mantêm ou difundem posições favoráveis ao regime de Vladimir Putin.
O pedido, divulgado pela Renascença, surge após a associação identificar cidadãos ucranianos acolhidos em Portugal como deslocados pela guerra, mas que, segundo a AUP, “operam como agentes da desinformação russa” e beneficiam de apoios públicos destinados a vítimas da agressão russa.
“Recentemente descobrimos que esses ‘agentes’ de desinformação russa operam também em Portugal. E, o mais chocante, é que recebem apoio financeiro do governo português enquanto se apresentam como refugiados da agressão russa desde 2022”, lê-se na carta assinada por Pavlo Sadokha, presidente da associação.
Associação denuncia caso de antigo jornalista pró-Rússia
Entre os casos apontados está o de Oleksandr Nesterenko, antigo jornalista ucraniano e atual dirigente da Associação Batkivshina (“Pátria”, em ucraniano). Nesterenko chegou a Portugal em abril de 2022, ao abrigo do estatuto de proteção temporária, e desde então tem publicado artigos e notícias em português com uma leitura do conflito diferente da visão ocidental.
Segundo Pavlo Sadokha, Nesterenko já tinha vivido em Portugal “há 10 ou 15 anos”, período durante o qual “fazia revistas políticas em que defendia que os tempos da União Soviética é que eram bons tempos”. O dirigente ucraniano acrescenta que o jornalista tem participado em eventos contra a Ucrânia, inclusive em iniciativas organizadas pelo PCP, partido que “defende o fim dos apoios à Ucrânia”.
“Percebemos que este homem participa em vários eventos contra a Ucrânia, inclusivamente os que são organizados pelo PCP. E, finalmente, descobrimos que todos aqueles agentes pró-Putin que estão nas redes sociais em Portugal estão sempre a fazer publicidade a este homem, que é mostrado como um ucraniano com outra visão do conflito entre a Rússia e a Ucrânia”, afirmou Sadokha à Renascença.
De acordo com a associação, Oleksandr Nesterenko consta da lista de refugiados que recebem apoio financeiro do Estado português, facto que motivou o envio da carta ao ministro da Presidência.
Na carta enviada ao Governo, a Associação dos Ucranianos em Portugal alerta para a utilização, “de forma ativa ou passiva”, de cidadãos ucranianos como instrumentos da narrativa de guerra russa, considerando preocupante que fundos públicos sejam usados para apoiar quem “promove desinformação ou propaganda pró-Putin”.
Pavlo Sadokha reconhece, contudo, que fiscalizar estas situações é extremamente difícil, uma vez que “não há como perguntar se um ucraniano que pede o estatuto de proteção temporária apoia Putin ou não”.
Ainda assim, o dirigente defende que o Estado português deve reagir sempre que tais casos são detetados: “Quando sabemos destes factos, avisamos o Estado português para que tenha uma reação. E eu acho que este tipo de homens tem de deixar de ter apoio do Estado português”, declarou.
A carta dirigida a António Leitão Amaro foi enviada em nome da comunidade ucraniana residente em Portugal, representada pela AUP, e visa pressionar o Governo a agir perante situações em que refugiados ucranianos alegadamente utilizam o estatuto de proteção para difundir propaganda russa.
O documento, a que a Renascença teve acesso, sublinha que a presença de “agentes de desinformação russa” em Portugal “compromete a solidariedade nacional e europeia com o povo ucraniano”, e pede uma resposta política “adequada e firme” para travar a utilização indevida dos apoios concedidos a quem fugiu da guerra.














