O regime de Nicolás Maduro está a diversificar as medidas de repressão à oposição e, ultimamente está a utilizar uma cantiga infantil de natal tradicional venezuelana para realizar visitas e raides porta-a-porta para mitigar os protestos e revolta após a vitória de Maduro nas eleições.
A tradicional rima “Tun-Tun”, que é inspirada pelo barulho de bater à porta e que versa “Truz-Truz, Quem é? Gente de paz! Abram a porta que é o Natal”, está a ser apropriada pelas forças do regime de Maduro, que até já a usam como nome da operação de repressão que está a ser desenvolvida.
A referência ao “Tun-Tun” não é nova no discurso do governo. Desde 2017, o regime tem usado este termo para caracterizar as suas operações de repressão contra dissidentes. Naquele ano, Diosdado Cabello, braço direito de Maduro, mencionou “Tun-Tun” no seu programa de televisão para acusar os opositores de serem “terroristas”. Este episódio marcou o início de uma série de repressões durante as grandes manifestações que ocorreram de abril a julho de 2017, que resultaram na prisão de 5.051 pessoas. As detenções, frequentemente realizadas fora dos parâmetros legais e constitucionais, refletiram a dureza com que o regime tratou os protestos.
Recentemente, o termo “Operação Tun-Tun” ganhou nova força. O presidente Maduro anunciou que qualquer pessoa que continue a protestar será enviada para Tocorón, uma prisão de máxima segurança que anteriormente abrigava membros do Tren de Aragua, uma organização criminosa transnacional originária da Venezuela. Esta ameaça materializou-se em mais de 1.010 prisões contabilizadas pela ONG Foro Penal em pouco mais de uma semana.
Douglas Rico, diretor do Corpo de Investigações Científica, Penais e Criminalísticas (CIPC), advertiu que a operação está apenas a começar e convocou os cidadãos a denunciar qualquer pessoa que tenha sido alvo de campanhas de ódio, seja física ou virtualmente. Esta política alinha-se com a promessa de Maduro de transferir mais de 2.000 indivíduos para prisões de alta segurança devido a protestos.
Temor e Incerteza entre os Cidadãos
A atual operação tem gerado um clima de paranoia coletiva. Os cidadãos vivem sob a constante ameaça de serem detidos a qualquer momento, sem saberem quando, onde ou como isso pode ocorrer. O medo é tão grande que muitos venezuelanos optam por sair sem os telemóveis ligados e a gravar, para evitar represálias. A operação parece ser indiscriminada, com as forças de segurança a ampliar o seu foco das áreas residenciais para as zonas populares, onde o apoio à oposição é mais evidente.
A Foro Penal relata várias irregularidades associadas à Operação Tun-Tun. As detenções podem ser feitas com base apenas no critério subjetivo dos agentes, sem necessidade de uma ordem judicial ou flagrante. Além disso, após a detenção, os advogados de confiança não são permitidos e os detidos são obrigados a aceitar defensores públicos impostos pelo regime.
A Operação Tun-Tun também se baseia na colaboração ativa da população. O diretor do CIPC, Douglas Rico, dá voz a denúncias de qualquer pessoa que tenha sido alvo de campanhas de ódio, utilizando uma definição muito ampla para “ódio” que facilita a repressão. Especialistas alertam que essa abordagem permite que qualquer crítica seja usada como justificativa para ação imediata contra o acusado, sem espaço para defesa adequada.
Além disso, as denúncias podem vir de qualquer fonte, desde vizinhos até funcionários de estabelecimentos comerciais, e aqueles que fazem acusações podem estar sob coação ou persuasão.
O regime não poupa nem mesmo os líderes da oposição. A líder oposicionista María Corina Machado está sendo investigada por “instigar a insurreição”, e há rumores de uma ordem de captura contra ela. Edmundo González, outro candidato de oposição, também enfrenta questões relacionadas à sua saída do país.
O ex-deputado Freddy Superlano foi detido à força e permanece incomunicado, enquanto Maglen Marín Rodríguez, ex-fiscal, foi presa por não processar manifestantes, um ato que o governo vê como uma tentativa de defender o direito à protesto, agora criminalizado. A anulação de passaportes tem sido outra ferramenta usada pelo regime para silenciar vozes críticas. Recentemente, Edni López, ativista de direitos humanos e docente, foi detida no Aeroporto Internacional de Maiquetía Simón Bolívar por ter um passaporte expirado.














