Durante a sua campanha presidencial, Joe Biden prometeu fazer da Arábia Saudita um pária internacional. Depois chegou a inflação galopante e um conflito na Ucrânia, o que fez o presidente americano ‘dar o dito por não dito’ e em junho último viajar para Jeddah para se encontrar com o príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman.
Mas se Biden esperava que MBS – como o governante do reino é conhecido – iria aumentar a produção de petróleo da Arábia Saudita, ficou muito desapontado: em outubro, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), liderada pelos sauditas, reduziu a produção em 2 milhões de barris por dia para elevar os preços. Agora, indiferente a um presidente americano que ameaçou “consequências” sem no entanto especificar, voltou a cortar a produção.
À distância, enquanto Biden olha de forma impotente, que esfrega as mãos de contente é o presidente russo, Vladimir Putin, explicou esta terça-feira o jornal britânico ‘The Telegraph’.
No passado domingo, nove membros da OPEP + (um coletivo maior de 23 nações) anunciaram um corte voluntário da produção em 1,2 milhões de barris por dia até ao final do ano, o que equivale a 1,1% da oferta global. A decisão elevou os preços do petróleo imediatamente… e vão continuar a subir. O petróleo bruto Brent subiu de 79,77 dólares por barril no domingo para 85,02 esta segunda-feira. Segundo o Goldman Sachs, deverá atingir 95 dólares em dezembro próximo e, um ano volvido, 100 dólares.
“Estes preços serão o novo normal”, apontou Bjarne Schieldrop, analista-chefe de commodities da ‘SEB Financial Services’, o que vai inevitavelmente traduzir-se em dor para milhões de consumidores.
É um triplo golpe para o Ocidente: os altos preços do petróleo vão manter a inflação alta; a decisão sinaliza que a Arábia Saudita está a virar as costas para o Ocidente e a voltar-se para a China. Por último, o aumento dos preços do petróleo vai prejudicar as sanções contra a Rússia, onde os lucros estão prestes a terminar.
Segundo o think tank ‘Center for Economic Policy Research’, um aumento de um dólar no preço do petróleo bruto aumenta as receitas de exportação russas em cerca de 2,7 mil milhões de dólares anuais (cerca de 2,48 mil milhões de euros), revelou Benjamin Hilgenstock, autor de um relatório sobre as sanções russas.
Já o aumento de 10 dólares no preço vai aumentar as receitas de exportação do petróleo da Rússia de 24,8 mil milhões para 133,02 mil milhões de euros este ano, o que faz do Kremlin o grande vencedor deste ‘braço de ferro’.
As sanções ocidentais ao petróleo russo chegaram tarde: a UE só introduziu um embargo ao petróleo bruto em dezembro de 2022 e aos derivados de petróleo em fevereiro de 2023. Durante a maior parte do ano passado, a Rússia beneficiou dos altos preços do petróleo e o seu superávit em conta corrente atingiu um recorde, revelou Hilgenstock. Quando as receitas estavam a começar a sofrer pressão, recebe um impulso da OPEP.
“Aqui é a Arábia Saudita a dizer: ‘Rússia, somos amigos.’ O que eles estão a fazer é ficar ao lado da Rússia e da aliança chinesa”, apontou Schieldrop. “Depois dos cortes da OPEP, vamos ter um mercado mais apertado. A Rússia poderá cobrar um preço mais alto pelo petróleo, obter melhores receitas e financiar mais facilmente a guerra na Ucrânia, o que indiretamente vai contrariar as sanções que o Ocidente implementou.”
A mudança é natural para a Arábia Saudita, porque a maior parte da procura futura pelo seu petróleo virá da Ásia. A medida é uma grande jogada de poder da Arábia Saudita, que anunciou cortes logo após os Estados Unidos garantirem que não iriam aumentar a procura global para reabastecer os seus sotcks estratégicos este ano.
“Agora eles podem fazer mais ou menos o que quiserem e controlar o mercado de petróleo como quiserem. Foi uma grande mudança no mercado de petróleo. os próximos cinco anos serão muito diferentes”, apontou Schieldrop.
OPEP+ confirma novo corte da produção de petróleo a partir de maio













