O governador de Ontário, Doug Ford, anunciou esta segunda-feira, 3 de junho, que a província canadiana proibirá empresas dos Estados Unidos de participarem em contratos públicos locais até que as novas tarifas comerciais impostas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, sejam revogadas. A medida surge em resposta à decisão de Washington de aplicar uma tarifa de 25% sobre todas as importações provenientes do Canadá e do México, medida que entra em vigor na terça-feira.
“O Canadá não começou esta disputa com os EUA, mas podem ter a certeza de que estamos prontos para vencê-la”, afirmou Ford numa publicação na rede social X.
Além de bloquear a participação de empresas norte-americanas nos concursos públicos da província, Ford anunciou também o cancelamento do contrato que Ontário tinha assinado com a Starlink, a empresa de internet via satélite de Elon Musk, que iria fornecer ligação de banda larga a comunidades rurais e do norte da província.
Empresas norte-americanas perderão milhares de milhões em contratos
O governo de Ontário e as suas agências gastam anualmente cerca de 30 mil milhões de dólares em aquisições públicas e investem 200 mil milhões no seu plano de desenvolvimento da província. Com a nova proibição, as empresas sediadas nos Estados Unidos deixarão de ter acesso a esses contratos.
“As empresas norte-americanas perderão dezenas de milhares de milhões de dólares em novas receitas. Só têm o presidente Trump para culpar”, escreveu Ford na sua publicação.
A decisão do governo de Ontário faz parte de uma resposta mais ampla do Canadá às tarifas impostas pelos EUA. O primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, já tinha anunciado a aplicação imediata de tarifas sobre 30 mil milhões de dólares em produtos norte-americanos, com novas taxas sobre outros 125 mil milhões a serem implementadas dentro de três semanas.
Cancelamento do contrato com a Starlink
Para além da proibição de empresas norte-americanas nos contratos públicos, Ford confirmou que Ontário irá anular o contrato de 100 milhões de dólares assinado em novembro de 2024 com a Starlink, que tinha como objetivo fornecer internet de alta velocidade a cerca de 15 mil lares e empresas em regiões remotas da província a partir de junho.
“Vamos ainda mais longe. Vamos rasgar o contrato da província com a Starlink. Ontário não fará negócios com pessoas determinadas a destruir a nossa economia”, declarou o primeiro-ministro ontariano.
A decisão ocorre num momento de crescente contestação a Elon Musk no Canadá, especialmente após a sua proximidade com Donald Trump durante a campanha eleitoral nos EUA. O empresário não só aconselhou o presidente norte-americano, como promoveu os seus conteúdos na plataforma X e angariou cerca de 200 milhões de dólares para a campanha de Trump.
A controvérsia em torno de Musk intensificou-se depois de este ter feito um gesto de braço estendido – amplamente interpretado como uma saudação nazi – durante um evento de comemoração da tomada de posse de Trump. Embora tenha negado que o gesto fosse uma referência ao nazismo, classificando as críticas como “truques sujos”, nunca desmentiu explicitamente as acusações.
Musk também tem feito comentários provocadores sobre a política canadiana. Em janeiro, elogiou sarcasticamente a demissão de Trudeau e insinuou que o Canadá deveria tornar-se um estado dos EUA.
A líder do Partido Liberal de Ontário, Bonnie Crombie, que já tinha apelado à anulação do contrato com a Starlink desde a posse de Trump, reagiu positivamente à decisão de Ford.
“Estou satisfeita por finalmente estar a acontecer”, escreveu Crombie no X, acrescentando que o governo de Ford nunca deveria ter assinado o que classificou como um “acordo vantajoso para Musk”.
Além das restrições às empresas norte-americanas e do cancelamento do contrato com a Starlink, Ford anunciou também que a Liquor Control Board of Ontario (LCBO), um dos maiores compradores de bebidas alcoólicas do mundo, deixará de vender álcool proveniente dos EUA, uma medida que outros líderes provinciais estão a seguir.
O primeiro-ministro da Nova Escócia, Tim Houston, ordenou à Nova Scotia Liquor Corporation que retirasse todas as bebidas alcoólicas norte-americanas das suas prateleiras já a partir de terça-feira, enquanto o primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, declarou no sábado que as lojas de bebidas da província deixariam imediatamente de comprar produtos dos Estados Unidos.
O conflito comercial entre os dois países está a escalar rapidamente, com o Canadá a endurecer a sua postura contra as medidas protecionistas da administração Trump.










