OMS alerta para nova estirpe da gripe que está a pressionar sistemas de saúde em toda a Europa

Pelo menos 27 dos 38 países da região europeia reportaram uma atividade gripal elevada ou muito elevada, com taxas de positividade superiores a 50% em seis países, incluindo Irlanda, Sérvia, Eslovénia e Reino Unido, revelou a agência internacional.

Pedro Gonçalves
Dezembro 17, 2025
13:15

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou esta quarta-feira para uma intensa vaga de gripe que está a afetar a Europa, impulsionada por uma nova estirpe do vírus A(H3N2), sub-clade K. Pelo menos 27 dos 38 países da região europeia reportaram uma atividade gripal elevada ou muito elevada, com taxas de positividade superiores a 50% em seis países, incluindo Irlanda, Sérvia, Eslovénia e Reino Unido, revelou a agência internacional.

O diretor regional da OMS para a Europa, Hans Henri Kluge, sublinhou que esta temporada é diferente das anteriores: “A gripe surge todos os invernos, mas este ano é um pouco diferente. Mostra como uma pequena variação genética no vírus da gripe pode colocar uma enorme pressão nos nossos sistemas de saúde.” Kluge frisou ainda o risco da desinformação, apelando à população para procurar informações credíveis em fontes como a OMS e as autoridades nacionais de saúde, lembrando que “em épocas de gripe desafiantes, informação fiável baseada em evidência pode salvar vidas”.

Vacinação continua a ser a principal medida preventiva
A OMS salientou que a vacinação continua a ser o passo mais importante na prevenção de doença grave causada pelo novo subtipo A(H3N2), mesmo que não impeça a infeção. Dados preliminares do Reino Unido confirmaram que a vacina reduz significativamente o risco de casos graves, sobretudo entre pessoas de maior risco, incluindo idosos, indivíduos com doenças crónicas, grávidas e crianças. Profissionais de saúde também são uma prioridade, tanto para proteção própria como para proteger os pacientes.

Segundo a OMS, embora as crianças em idade escolar sejam os principais vetores da transmissão comunitária, os adultos com mais de 65 anos constituem a maioria dos casos graves que requerem hospitalização. O pico da temporada gripal é esperado entre o final de dezembro e o início de janeiro, e apesar da gravidade, Kluge assegurou que “esta temporada de gripe, embora séria, não representa o nível de emergência global que enfrentámos durante a pandemia de Covid-19”.

Pressão da gripe sentida em Portugal
Em Portugal, a temporada gripal chegou três a quatro semanas mais cedo do que o habitual, impulsionada pela nova variante do vírus A(H3N2), que apresenta pequenas alterações que permitem evadir parcialmente o sistema imunitário. Estas mutações aumentam a capacidade de disseminação do vírus, com um índice de contágio estimado em 1,4, superior ao de uma gripe normal, que é de 1,2. No entanto, não há indicação de que a gravidade clínica seja superior à das temporadas anteriores.

A antecipação da gripe e a maior transmissibilidade têm aumentado a pressão sobre os serviços de saúde. Nos hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo, os tempos médios de espera nas urgências estão acima do recomendado. No Hospital Amadora-Sintra, os doentes urgentes chegaram a aguardar mais de 15 horas para serem atendidos, enquanto no Garcia de Orta, Beatriz Ângelo e Santa Maria, em Lisboa, os tempos variaram entre 2h29 e 4h50. No Porto, o Hospital de São João registou 2h39 e o Santo António 3h30.

Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, alerta que a fragilidade do sistema deve-se sobretudo à falta de recursos e infraestruturas insuficientes, especialmente em Lisboa e Vale do Tejo. “Este não é um problema desta época da gripe, mas sim estrutural, que exige investimentos e reforço de recursos a médio prazo”, afirmou.

O Governo reconheceu a necessidade de reforçar a resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS) durante esta época gripal. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, explicou que estão a ser alargados os horários dos Centros de Atendimento Clínico e Serviços de Atendimento Clínico, reforçadas ambulâncias de reserva do INEM e disponibilizadas camas sociais pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A ministra apelou ainda à vacinação de todos os grupos prioritários, lembrando que a vacina é gratuita e disponível nos centros de saúde e farmácias aderentes.

Até 30 de novembro, foram vacinadas 2.297.551 pessoas, mais 139.386 do que no mesmo período de 2023, com elevada cobertura nos grupos de risco, incluindo cerca de 75% dos idosos em lares com mais de 85 anos e cerca de 70% dos residentes com menos de 85 anos, garantiu a diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado.

Os especialistas alertam que o pico da gripe deverá ocorrer após as festividades de Natal e Ano Novo, devido à maior concentração de pessoas em espaços fechados, favorecendo a transmissão do vírus. “As crianças são vetores importantes de contágio, e as reuniões familiares ou em locais fechados aumentam significativamente a possibilidade de infeção”, explicou Bernardo Gomes. As autoridades reforçam a importância de medidas preventivas, incluindo vacinação, uso de máscara em caso de sintomas respiratórios e isolamento em caso de doença.

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