Investigadores espanhóis descobriram que um medicamento que afeta o gene-chave responsável pelo aparecimento do cancro (conhecido como ‘MYC’), foi pela primeira vez capaz de inibir a função do referido gene num ensaio clínico de primeira fase- Até agora, nenhum outro medicamente havia conseguido fazer o mesmo e forma segura e eficaz.
Os resultados deste primeiro teste, um grande passo na luta contra o cancro, foram apresentados num simpósio de terapêuticas para o cancro, em Barcelona, pela Dr.ª Elena Garralda, diretora da Unidade de Investigação de Terapia Molecular do Instituto de Oncologia de Vall d’Hebron (VHIO). “O MYC é um dos meus alvos na lista dos ‘mais procurados’ no cancro, porque tem um papel essencial em dirigir e manter os tipos mais comuns de cancros humanos, como o cancro da mama, o cancro da próstata, o cancro do pulmão e o cancro do ovário. Até hoje, nenhum fármaco que inibe o MYC foi aprovado para uso clínico”, explicou a responsável.
Os cientistas do VHIO desenvolveram uma mini-proteína chamada OMO-103, que consegue entrar nas células e chegar ao núcleo. Em experiências feitas em laboratório e em ratos, a OMO-103 foi capaz de inibir a capacidade do gene MYC promover o crescimento de tumores, através do bloqueio da função que controla a circulação de informação de muitas mutações genéticas encontradas nos cancros.
Desde abril de 2021, que os investigadores estão a fazer um ensaio clínico com 22 doentes oncológicos, para garantir a segurança e nível de controlo da OMO-103 no desenvolvimento dos cancros. Todos os participantes, com vários tipos de cancro, tinham recebido entre três e 13 tratamentos prévios.
No estudo, a OMO-103 foi dada por via intravenosa, uma vez por semana, em doses variadas, conforme o paciente. Os investigadores fizeram biópsias aos tumores ao fim de três semanas de tratamentos para aferir os níveis de atividade do gene MYC, bem como outros indicadores biológicos do cancro.
Desde então, e até 10 de outubro de 2022, oito dos 12 pacientes que tinham feito tomografias computorizadas após nove semanas, tinham a doença estabilizada e, com o tratamento com a OMO-103, foi verificado que os tumores tinham parado de crescer. Os resultados foram verificados em doentes oncológicos com cancro do pâncreas, cancro do colón, cancro do pulmão, sarcoma e cancro das glândulas salivares.
“Ainda é cedo para avaliar a atividade do medicamento, mas estamos a ver a estabilização da doença em muitos pacientes. Incrivelmente, um paciente com cancro pancreático manteve-se no estudo seis meses e, ao fim desse tempo, o tumor reduziu em 8%, tendo sido verificada uma redução de DNA derivado do tumor na circulação sanguínea”, continua Elena Garralda.
Os efeitos secundários mais verificados foram reações menores ao tratamento intravenoso, como arrepios, febre, náuseas, irritação cutânea ou baixa pressão arterial. Doses maiores da OMO-103 resultaram em efeitos secundários mais notórios, mas facilmente tratáveis, destacam os investigadores, que também verificaram que, após a aplicação do tratamento, não foram identificados anticorpos contra o fármaco, que podiam dificultar a ação do mesmo.
A nova esperança para quem sofre de cancro, vai entrar agora numa nova fase de testes. “OMO-103 é o primeiro inibidor de MYC a completar com sucesso a primeira fase de um ensaio clínico e estar pronto a seguir para a segunda fase de ensaio. Determinámos que a dose recomendada para esta nova fase será de 6,48mg/kg”, terminou a cientista responsável pelo estudo revolucionário.







