Oito meses depois do ‘apagão’, há mais perguntas do que respostas e a Península Ibérica continua uma ilha energética

O grande apagão que deixou toda a Península Ibérica às escuras a 28 de abril continua a levantar dúvidas e preocupações oito meses depois, expondo fragilidades estruturais das redes elétricas europeias num momento de aceleração da transição energética.

Revista de Imprensa

O grande apagão que deixou toda a Península Ibérica às escuras a 28 de abril continua a levantar dúvidas e preocupações oito meses depois, expondo fragilidades estruturais das redes elétricas europeias num momento de aceleração da transição energética. O incidente foi classificado pelo comissário europeu Dan Jorgensen como “o mais grave em quase duas décadas na Europa”, sublinhando a dimensão inédita de um blackout com impactos simultâneos em vários países.

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Segundo o Público, especialistas e instituições europeias convergem na ideia de que o apagão funcionou como um alerta para as limitações de uma rede elétrica envelhecida. Kristian Ruby, secretário-geral da Eurelectric, afirmou à BBC tratar-se de um “incidente muito sério que teve grandes impactos em vários países europeus ao mesmo tempo”, algo que descreveu como “muito, muito raro”. A Agência Internacional de Energia (AIE) reforçou a leitura, defendendo que as redes “não devem ser o gargalo para o crescimento de um sistema impulsionado por energias renováveis”.

A necessidade de modernização surge como uma questão central. O presidente da Eurelectric, Markus Rauramo, foi taxativo ao afirmar que “a rede dos anos 80 não pode ser espinha dorsal do futuro”, alertando que cerca de 30% das redes elétricas europeias têm mais de 40 anos, percentagem que pode atingir 90% até 2050. A Comissão Europeia reconheceu esta urgência e apontou a necessidade de investir em licenciamento de infraestruturas elétricas, energias renováveis e armazenamento, estando previsto um financiamento de 1,2 biliões de euros a aplicar até 2040.

Um dos pontos críticos identificados prende-se com a fraca interligação da Península Ibérica ao resto da União Europeia. Espanha e França têm uma das mais baixas capacidades de interconexão entre países vizinhos, com apenas 2800 megawatts, contrastando com mais de 15.000 megawatts de ligações francesas a outros países europeus. Portugal, Espanha e França iniciaram conversações para acelerar estes projetos, com a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a admitir a necessidade de “pressão adicional sobre a Comissão Europeia e sobre a França” para uma ligação efetiva.

As conclusões do relatório World Energy Outlook 2025, da AIE, descrevem a Península Ibérica como “um laboratório de referência para o sistema elétrico do futuro”, onde a produção renovável avança mais rapidamente do que a infraestrutura de transporte e armazenamento. O documento alerta que a segurança energética depende não só da geração, mas também da coordenação, do investimento e da agilidade regulatória, identificando riscos num sistema altamente renovável com redes ainda inadequadas.

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O relatório sublinha ainda uma assimetria no modelo espanhol: desde 2015, o investimento em geração de energia cresceu 70%, enquanto o investimento em infraestruturas elétricas aumentou menos de metade. Num contexto global, a AIE lembra que as redes enfrentam riscos acrescidos associados às alterações climáticas, ataques cibernéticos e eventos extremos, recordando que, só em 2023, interrupções energéticas afetaram mais de 200 milhões de residências em todo o mundo, com 85% dos incidentes relacionados com danos nas redes de transmissão e distribuição.

Perante este cenário, os ministros da Energia da União Europeia acordaram, a 15 de dezembro, o Mecanismo Interligar a Europa para 2028-2034, visando reforçar investimentos em redes transeuropeias e projetos transfronteiriços. O ministro dinamarquês Lars Aagaard afirmou que o acordo garante que “nenhum Estado-membro fique isolado”, enquanto o Conselho da UE sublinhou a necessidade de superar entraves como licenciamentos demorados, desafios de financiamento e falta de coordenação, para construir uma infraestrutura energética mais resiliente, interligada e preparada para a eletrificação e descarbonização da economia.

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