Ocidente não deve esquecer que nem todos os russos apoiam Putin e que “Rússia democrática e europeia” ainda é possível, diz dissidente

Mikhail Khodorkovsky, empresário russo exilado e uma das grandes vozes críticas do regime do Presidente Vladimir Putin, apela a que todos os russos sabotem as estruturas do Estado, para enfraquecer o esforço de guerra na Ucrânia e para desestabilizar o próprio governo.

Filipe Pimentel Rações
Setembro 5, 2022
17:53

Mikhail Khodorkovsky, empresário russo exilado e uma das grandes vozes críticas do regime do Presidente Vladimir Putin, apela a que todos os russos sabotem as estruturas do Estado, para enfraquecer o esforço de guerra na Ucrânia e para desestabilizar o próprio governo.

Depois de ter passado dez anos na prisão, entre 2003 e 2013, agora vive em Londres, e contou ao ‘The Guardian’ que “precisamos de explicar às pessoas o que podem fazer”, e defende que a população tem um grande potencial para frustrar a máquina de guerra do Kremlin que tem rolado sobre o país vizinho.

O apelo de Khodorkovsky à revolta pretende galvanizar os russos em prol da sua própria liberdade, bem como da liberdade de todo os povos subjugados por Moscovo. Ele diz que as demostrações podem ir da pintura de graffitis com mensagens anti-guerra à sabotagem de caminho de ferro que estejam a ser usados para transportar mantimentos, armas e outros bens para a frente de guerra. No limite mais extremo, podem até passar por incendiar centros de recrutamento, diz o dissidente.

“Mas somos muito claramente contra métodos terroristas que possam ferir pessoas desarmadas”, salienta, criticando o assassinato de Daria Dugina, filha do ideólogo de Putin, Aleksander Dugin.

Khodorkovsky aponta que o Presidente russo tem uma habilidade inata para a manipulação e que é alguém que se consegue adaptar facilmente aos mais variados contextos, explicando que, embora no início do seu percurso como líder da Rússia possa ter aparentado estar disponível para a aberturas ao Ocidente, “ele nunca teve quaisquer visões liberais”.

O dissidente afirma que hoje é constrangedor e até difícil para muitos russos assumirem-se enquanto tal, considerando que a guerra lançado pelo Kremlin sobre a Ucrânia empurrou toda a população russa para o campo da infâmia.

Nesse sentido, insta os governos ocidentais a não negligenciarem os russos que não se reveem no atual governo e que se opõem à guerra. “O Ocidente tem aliados ideológicos na Rússia, que consideram que a Rússia se deverá desenvolver num caminho europeu”, frisa Khodorkovsky.

“Se Putin viver mais 10 ou 15 anos, penso que fará reduzir o número de russos orientados para a Europa, e penso que isso não será bom para ninguém, exceto para Putin”, alerta.

Ainda assim, considera que o regime de Putin acabará eventualmente por ruir, sendo que uma vitória da Ucrânia seria um elemento fundamental dessa queda. Quanto ao futuro, o dissidente acredita que a Rússia deveria ser “reformada” e tornar-se numa federação parlamentar mais liberal. Acredita que esse cenário poderá ser alcançado sem derramamento de sangue, “mas isso será bastante improvável”, admite.

Khodorkovsky descreve a guerra na Ucrânia e o atual quadro geopolítico como “um pesadelo”, mas sentencia que “isso não significa que a Rússia e a Europa se tenham separado para sempre”.

“É extremamente importante que neste cenário emotivo difícil mantenhamos uma mente calma, um pragmatismo e uma visão do futuro, de uma Rússia democrática e europeia”, salienta.

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