Ocidente acredita que as sanções farão os russos abandonar Putin – mas a história diz que não

Essa era parece estar a terminar rapidamente, dando lugar ao renascimento do nacionalismo russo, que se tem espalhado rapidamente, como resultado direto da asfixia económica do país devido às sanções e da ampla rejeição do Ocidente

Francisco Laranjeira
Março 28, 2022
8:00

Enquanto a Rússia está a liderar uma guerra que já resultou na fuga de milhões de refugiados ucranianos para países vizinhos, as marcas ocidentais estão igualmente em êxodo da Rússia – tome-se por exemplo o fecho do mais de 800 restaurantes McDonald’s, o primeiro restaurante americano a abrir na Rússia, em 1990, cuja chegada foi o símbolo da nova era pró-ocidente na Rússia.

Essa era parece estar a terminar rapidamente, dando lugar ao renascimento do nacionalismo russo, que se tem espalhado rapidamente, como resultado direto da asfixia económica do país devido às sanções e da ampla rejeição do Ocidente em relação à Rússia. No entanto, para quem pensa que as sanções vão virar a Rússia e os russos para terminar a guerra então sabem muito pouco sobre o país, a sua história e o seu povo.



Os russos estão acostumados à turbulência e instabilidade. Já sofreram experiências sociais cruéis durante o século XX e início do século XXI, realizados pela sua própria liderança política. À exceção do raro exemplo de Mikhail Gorbachov, a liderança russa durante este período nunca foi democrática.

O país, cuja participação na I Guerra Mundial foi liderada por um czar fraco, saiu empobrecido daquele conflito. O Governo do czar foi brutalmente derrubado por uma revolta bolchevique que inaugurou o Governo soviético durante décadas. A construção do estado soviético implicou o exílio de milhões do seu próprio povo para os campos de gulag e a execução a sangue frio de muitos deles durante as repressões em massa de Estaline de entre 1917 e 1956.

A propriedade privada foi abolida em 1929 e os líderes políticos comandaram a obediência absoluta e altruísta ao estado soviético – a II Guerra Mundial exigiu sacrifícios dolorosos de todos os cidadãos, incluindo crianças.

Após a guerra, uma esgotada URSS construiu a ‘metafórica’ Cortina de Ferro’, impedindo os seus cidadãos de viajar e comunicar com o Ocidente. As tentativas soviéticas de expandir a sua influência comunista viria a redundar na Guerra Fria, período no qual as reformas agrícolas fracassadas deram origem ao racionamento de alimentos. A dolorosa desintegração da URSS, em 1990, trouxe consigo a turbulência económica à recém-formada Rússia, assim como o desemprego e altas taxas de suicídio.

E o que nos ensina esta recordação da história? Sugere que os russos não se assustam com a ausência de mercadorias induzidas pelas sanções. Apesar de muitas marcas de moda de alta qualidade, iPhones ou carros estrangeiros, entre outros, tenham-se tornado parte da vida russa dos últimos 20 anos, não tiveram tempo suficiente para fazer esquecer uma vida sem eles. Aliás, a maioria dos negócios de luxo operava em Moscovo enquanto a esmagadora maioria dos russos não o via nas suas cidades.

Historicamente, qualquer luta política e económica uniu a Rússia e o seu povo, especialmente diante de um inimigo comum. O inimigo era tradicionalmente representado pelo Ocidente. A II Guerra Mundial e a Guerra Fria uniram a nação em torno da ideia de auto-sacrifício como central para a identidade soviética.

Nem todos os russos apoiam a guerra na Ucrânia e o Governo que os arrastou para ela. Mas todos os russos estão a sofrer com as sanções e a crise. O seu sofrimento comum é uma coisa perigosa: é muito familiar. O povo russo é paciente, estoico e muitas vezes irracionalmente devoto à sua pátria cruel, cujo líder autocrático iniciou uma guerra.

A situação de hoje é extrema – a hipótese de os russos se voltarem para o seu governo, por se sentirem rejeitados pela comunidade global, é alta, o que provavelmente levará à intensificação do regime autocrático de Putin sob o pretexto de restaurar a indústria e a economia do país diante da rejeição ocidental.

Na Sibéria, as regras de segurança são uma questão de vida ou morte. Uma delas é sempre deixar ao urso uma rota de fuga. O urso é particularmente agressivo quando ferido, encurralado ou quando protege os seus filhotes. O urso ferido, que representa a nação russa, não é exceção.

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