As Nações Unidas lançam esta segunda-feira, em Nova Iorque, o 3º Relatório Global sobre a Avaliação do Estado do Oceano, numa cerimónia que coincide com o Dia Mundial dos Oceanos. O documento, conhecido internacionalmente como WOA III, é apresentado como a mais recente avaliação integrada do estado do oceano mundial e inclui dimensões ambientais, sociais e económicas.
O relatório foi aprovado por mais de 190 países no âmbito da Assembleia Geral da ONU e resulta de um processo iniciado em 2002 para reforçar a ligação entre conhecimento científico e decisão política sobre o ambiente marinho. A avaliação junta informação sobre governança, pressões humanas, sustentabilidade dos recursos marinhos, alterações em curso no oceano e importância dos dados científicos para orientar políticas públicas.
Um retrato global do oceano e das pressões humanas
O WOA III procura olhar para o oceano não apenas como espaço natural, mas como sistema essencial para o clima, a alimentação, a economia, a saúde e o bem-estar das populações. A ONU sublinha que o relatório reflete o trabalho de quase 600 especialistas de 86 países e constitui a única avaliação global integrada sobre o estado do oceano, incluindo os seus aspetos socioeconómicos.
A avaliação aborda temas como alterações físicas e químicas no oceano, perda de biodiversidade, poluição, alterações climáticas, governação oceânica e relação entre ecossistemas marinhos e bem-estar humano. Segundo o MARE, esta edição incorpora também, de forma sistemática, dimensões transversais como equidade, conhecimento de comunidades locais e caminhos para a utilização sustentável dos recursos marinhos.
O relatório inclui ainda a abordagem ‘One Health’, que liga a saúde do oceano à saúde humana e ao bem-estar. Esta leitura cruza áreas como igualdade de género, equidade, participação das comunidades locais e impactos da pandemia de COVID-19, mostrando que a degradação dos ecossistemas marinhos não é apenas um problema ambiental, mas também social e económico.
Ciência portuguesa no processo da ONU
A elaboração do relatório contou com a participação de 580 peritos de 86 países, organizados em equipas interdisciplinares. Entre os contributos portugueses destaca-se Maria João Bebianno, professora catedrática jubilada, que integra o grupo de peritos responsável por este processo desde 2016.
Participaram ainda investigadores de várias instituições nacionais, incluindo o IPMA e as universidades do Algarve, dos Açores, de Aveiro, de Évora, de Lisboa e Nova de Lisboa, além do WAVEC. O MARE destaca a participação de investigadores portugueses no relatório como exemplo do contributo nacional para conhecimento científico com relevância internacional e impacto em políticas públicas.
A cerimónia oficial, promovida pelo secretário-geral das Nações Unidas, deverá incluir também a apresentação de uma plataforma digital com dados e informação do relatório. O objetivo é tornar mais acessível a base científica que pode apoiar decisões sobre conservação, gestão sustentável e proteção do oceano.
Um relatório para transformar ciência em decisão
Mais do que um diagnóstico técnico, o WOA III pretende servir de instrumento para governos, organizações internacionais, investigadores e decisores. A lógica é simples: conhecer melhor o estado do oceano para responder de forma mais eficaz às pressões que ameaçam os ecossistemas marinhos.
A publicação chega num momento em que o oceano está no centro de várias urgências globais: alterações climáticas, subida da temperatura da água, perda de biodiversidade, poluição, pressão sobre pescas e necessidade de conciliar economia azul com conservação.
Ao reunir ciência, governança, dados digitais e dimensões sociais, o relatório da ONU coloca uma ideia no centro do debate: proteger o oceano deixou de ser apenas uma questão ambiental. É também uma condição para a saúde, a segurança alimentar, a economia e o futuro das comunidades costeiras.



