“Objetivos cumpridos”: especialista militar indica que esforço de guerra da Ucrânia sai da cimeira da NATO “garantido” para os próximos cinco anos. E Portugal tem uma palavra a dizer…

Tenente-general Marco Serronha falou em exclusivo à ‘Executive Digest’ sobre os anúncios feitos em Washington, sem esquecer o anúncio do Governo português em aumentar o investimento em Defesa

Francisco Laranjeira

Terminou esta sexta-feira a cimeira do 75º aniversário da NATO em Washington (Estados Unidos), no qual foi reafirmado o firme apoio à Ucrânia no âmbito da sua guerra com a Rússia. Volodymyr Zelensky – que esteve presente na cimeira – ruma a Kiev com promessas financeiras, de equipamento militar e da inevitabilidade da adesão da Ucrânia à NATO.

Foram por isso cumpridos as metas de Kiev? De acordo com o tenente-general Marco Serronha, apesar de “o ótimo nem sempre ser possível, mas no quadro daquilo que são as necessidades da Ucrânia, julgo que foram cumpridos os objetivos”.

“Há dois grandes desenvolvimentos: a consolidação do compromisso dos 40 mil milhões de euros por ano, a partir de 2025. Para este ano, grande parte dos países já têm alocada essa massa financeira para a Ucrânia, através de acordos bilaterais. Depois, a missão de assistência e treino, que vai ser criada, para dar treino às Forças Armadas ucranianas e integrar as doações de equipamentos militares, que vai ser feito na Alemanha”, explica, em exclusivo à ‘Executive Digest’.

“A questão da adesão da Ucrânia já se sabia que não se podia fazer nesta fase. No entanto, a linguagem utilizada é bastante boa, dá uma orientação de que assim que for oportuno Kiev poderá aderir. Irreversível é uma questão de quando, fica sempre aberto. Há um compromisso político sobre a perspetiva da adesão”, frisa o responsável militar.

“O que era expectável para o esforço de guerra da Ucrânia, durante a cimeira da NATO, para oferecer capacidade para recuperar se não tudo mas boa parte do território que perdeu, a sustentação de um esforço de guerra de média e longa duração – de entre 3 e 5 anos – está de certo modo assegurado”, precisa o antigo 2º comandante da missão da ONU na República Centro-Africana.

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“Depois, o presidente Biden reforçou o fornecimento de equipamentos militares já este ano: baterias de Patriot, sistemas de defesa aérea e a própria questão dos aviões, dos F-16. Evidente que os F-16 a operar em território ucraniano vai ser difícil, mas terá de ser. Difícil porque a Rússia tem capacidade de ataque com mísseis e drones a todo o território ucraniano. Isto exigirá um dispositivo de defesa aérea integrado na defesa das bases aéreas que vai ter de ser feito. Julgo que muitas destas baterias de Patriot e de defesa aérea são exatamente para isso. No ar, o F-16 tem capacidades bastante superiores aos aviões russos. Mas só quando estiverem no ar é que se vai perceber o efeito”, explicou o tenente-general.

À margem da cimeira da NATO, o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou que o Governo irá “colocar em marcha” o processo negocial com os militares com vista a uma valorização remuneratória, embora sem se comprometer com montantes.

No entanto, há mais: “Portugal tem dois grandes objetivos nesta cimeira [da NATO]: primeiro, assumir o seu compromisso de antecipar para 2029 o compromisso de alcançar os 2% de gastos em Defesa no Orçamento do Estado. Para tal, temos um plano credível, já formalizado numa carta enviada ao secretário-geral da NATO, e na qual estão expressas as componentes desse esforço”, refere o primeiro-ministro.

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“Desde logo, a componente humana, de recrutamento e retenção de pessoal das Forças Armadas portuguesas e o apoio a ex-combatentes. Por outro lado, a aquisição de equipamento, variado, que vai desde viaturas de combate de infantaria, drones, capacidade aérea. E finalmente, um dos grandes pontos onde temos colaborado, e onde muita da despesa é assumida, a nossa participação em missões internacionais.”

Assim, de acordo com Luís Montenegro, este esforço “vai fazer aumentar a atual despesa de 4.186 milhões para 6 mil milhões de euros” em 2029, “um esforço acrescido de 400 milhões de euros por ano”.

Para o tenente-general Marco Serronha, o reforço do investimento não vai impedir que “Portugal seja um dos últimos países a chegar à meta dos 2% na NATO, apesar de antecipar em um ano esse compromisso. Mesmo países que gastam menos atualmente, como o Canadá, vão recuperar para os 2% num prazo muito mais curto. É evidente que se trata de um esforço financeiro relativamente grande, mas que é necessário fazer”.

“É evidente que o Governo está, através da idD Portugal Defence, tentar trazer todos os parceiros para a mesa – privados e indústrias europeias – no sentido de organizar um dispositivo de Defesa que tenha uma pegada em Portugal. De algum modo, que este esforço de reequipamento militar também faça uma transferência de tecnologia para Portugal. Há muitas empresas à procura de equipamentos de defesa: até que ponto estão na disponibilidade de aplicar em Portugal em setores onde há um desenvolvimento tecnológico relativamente estável?”, aponta.

“É ter cá fábricas de munições”, avança. “Ainda há algum know-how dessa área em Portugal, apesar de termos fechado as fábricas de munições há uns anos. Depois, o Governo pode apoiar cedendo terrenos para localização e facilidades de natureza fiscais.”

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E em que setores deve surtir o efeito deste investimento? De acordo com o especialista militar, há três campos onde intervir.

“A produção de munições, porque há uma grande falta no mercado internacional e vai continuar nos próximos anos. É evidente que fabricar munições de armas ligeiras de calibres mais pequenas é uma coisa, mas fabricar munições de artilharia de 155 mm é outra. Quem aderir, tem isso vendido para os próximos anos. Também temos de pensar que a situação geopolítica internacional não indicia que, mesmo que se resolva a guerra na Ucrânia, não haja conflitos de grande dimensão noutros pontos do mundo.”

“Outra é a capacidade indústria portuguesa nacional, especialmente na área metalo-mecânica, onde temos algum know-how e que se possam associar a empresas para fazer manutenção de equipamentos – carros de combate, peças de artilharia – feitas cá em Portugal mas também no fabrico de peças.”

“Outra á rea que está a dar passos é a indústria do espaço, onde nós podemos estar na linha da frente.Temos alta formação, reconhecida internacionalmente, que pode ser uma forma de atrair o nosso talento para que não saia para o estrangeiro.”

Até porque, refere o tenente-general Marco Serronha, a “dissuasão só se consegue com produção defensiva: só se consegue evitar uma guerra se se dissuadir países como a Rússia de fazer alguma asneira. E isso só se consegue com capacidades reais, se não o Putin faz o mesmo que fez na Ucrânia… mas não há certeza que numa próxima ocasião não seja um país NATO”.

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