A contabilidade é dos últimos dois anos: segundo foi comunicado pelos países de todo o mundo, a pandemia levou mais de 5 milhões de pessoas. Mas estima-se que o número real possa ser mesmo o quádruplo desse número. Os registos do excesso de mortalidade agora conhecidos – uma métrica que compara as mortes registadas com as estimadas – revelam que morreram muito mais pessoas do que as anunciadas.
Apurar o valor certo tem-se revelado um desafio complexo porque não basta contar apenas os números do excesso de mortalidade de cada país. Além disso, já se sabe que alguns dados oficiais disponíveis são manifestamente deficientes em mais de 100 países, com valores não recolhidos ou não divulgados atempadamente. Daí que, agora, demógrafos, cientistas de dados e especialistas em saúde pública estejam a reunir esforços para reduzir esse grau de incerteza. Para tal, estão a servir-se de métodos que incluem as imagens de satélite de cemitérios, inquéritos porta-a-porta e modelos informáticos que tentam extrapolar as estimativas globais a partir de todos os dados disponíveis.
Além disso, a própria Organização Mundial da Saúde está também a ultimar uma primeira estimativa global. Mas a mais recente contribuição para o caso veio da revista britânica The Economist.
Segundo as suas contas, haverá mais 12 a 22 milhões de mortes devidas à Covid-19 que estão fora dos números oficiais.
“A única certeza que temos é que há uma variação muito ampla destes números”, disse já o sueco Sondre Ulvund Solstad, jornalista de dados e responsável pelo trabalho da The Economist.
“Mas à medida que nos chegam mais informações, é possível aproximar-nos mais do valor real”.
Do seu lado está também Giacomo De Nicola, especialista em estatística da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, Alemanha, que no ano passado avaliou os dados naquele país. Foi quando descobriu que comparar as mortes com a mortalidade média nos anos anteriores subestimava- e muito! – o número de mortes esperadas.
Não é caso único: na Rússia, por exemplo, foram reportadas mais de 300 mil mortes devidas à Covid-19 no final de 2021. Mas é provável, estimam agora os especialistas, que sejam mais de 1 milhão as mortes registadas no mesmo período. Na Índia, os valores podem ser dez vezes maiores do que os oficiais.
Na China, a discrepância é igualmente gritante. O modelo para o país estima quase 750 mil mortes, qualquer coisa como mais de 150 vezes os 4 600 relatados pelo país. Mas o intervalo de incerteza que vai desde menos 200 mil mortes do que o esperado até 1,9 milhões de mortes em excesso.





