O valor de uma vida hoje vs o valor de uma vida amanhã

Por Pedro Oliveira, CEO da BP Portugal

Sempre que fui desafiado para colaborar nesta coluna, tentei manter a prática de não escrever sobre o sector de actividade em que opero.

Desta vez, de modo “tangencial” e face à premência do tema, permito-me partilhar algumas reflexões sobre emissões, alterações climáticas e as correspondentes escolhas que temos de fazer.

Não entrarei na dialéctica estéril sobre a relação de causa e  efeito entre emissões e alterações climáticas; porque, como dizem os ingleses, reduzir as emissões “is good for all seasons”, por razões óbvias. O que de facto se revela crítico, central e urgente, é o modo como todos em conjunto temos de atacar este enorme desafio de modo pragmático e sustentável tendo em conta todas as variáveis do problema, e garantindo, na medida do possível, o bem-estar presente sem comprometer o futuro. Já lá iremos…

É óbvio que este é um problema global da Humanidade, ficando claro que esforços episódicos, norteados pela singularidade e oportunismo de agendas políticas locais e regionais, são absolutamente inconsequentes e até nocivos, quando essas mesmas agendas não estão articuladas a nível global.

O desafio aumenta quando tomamos consciência de que nos próximos 25 anos a Economia Mundial crescerá cerca de 50% (se tudo correr normalmente), sendo que as necessidades energéticas para alimentar este crescimento situar-se-ão em cerca de mais 30% vs as necessidades actuais. Condicionar o crescimento (poderia ser uma via) ou até reduzir o acesso à energia subjacente ao mesmo (com as consequências que daí resultam), também não pode ser uma opção, face ao óbvio direito que todas as populações têm em aceder a níveis crescentes de bem-estar e desenvolvimento.

Atacar os níveis de emissões no presente e no médio prazo implicará, sempre, alocar recursos que estariam destinados ao nosso bem-estar presente, na expectativa de obter maior bem-estar futuro. A intensidade com que estaríamos disponíveis para condicionar o presente em prol do futuro é hoje em dia objecto de estudos aprofundados, havendo inclusivamente reputados economistas (ex. William Nordhaus, Prémio Nobel da Economia 2018, ou Lord Nicholas Stern), que publicaram estudos valiosíssimos sobre o tema. Como em todos os temas escaldantes, existem várias correntes defendendo níveis distintos de “agressividade” na realocação de recursos no presente, com derivadas muitas vezes dramáticas (risco de perda de vidas), de modo a promover maiores impactos positivos no futuro (ganho de vidas). Nesta análise, é interessante verificar que os modelos econométricos são absolutamente consensuais nos objectivos e resultados, mas são surpreendentemente divergentes no nível (em valor e no tempo) da realocação de recursos exigidos para atingir esses mesmos resultados.

E porque é que reputados autores chegam a resultados idênticos com perfis de esforço tão distintos nos seus modelos? Porque, na realidade, utilizam custos de oportunidade diferentes, o que equivale a dizer que avaliam de modo distinto o impacto alternativo e mais ou menos virtuoso da realocação dos recursos (financeiros, esforço, efeitos colaterais) em todas as suas dimensões agregadas e consequentemente nas nossas vidas.

Sem colocar em causa o interesse académico dos modelos econométricos que colocam em perspectiva o valor do bem-estar amanhã e até da nossa existência, à custa de parte do nosso bem-estar presente, desafio os leitores a descer ao mundo real e aos dados que são do nosso conhecimento, no sentido de progredirmos na nossa reflexão, enquanto os modelos econométricos futuros se vão sofisticando a bem da Humanidade.

As fontes, e respectivos pesos inerentes às emissões, dividem-se entre indústria (40%), edifícios (35%) e mobilidade (25%). A mobilidade privada representa 20% do total da mobilidade, sendo assim responsável por 5% (25%x20%=5%) das emissões a nível global. Este é, por isso, imperativamente um esforço transversal a todos os sectores e a todos os agentes do sistema. Enganam-se, por isso, aqueles que pensam que o problema se resolve na totalidade, actuando sobre 5% da causa. Conclui-se que uma transição energética sustentável, só se fará envolvendo todos os actores do sistema, sem excepção. Neste ponto, e de modo a concretizar com base em factos reais, permitam-me que recorra à experiência global do Grupo BP, que há duas décadas foi uma das primeiras companhias petrolíferas a dar visibilidade ao tema das alterações climáticas, investindo massivamente biliões de dólares em energias renováveis (eólicas, solar, bio combustíveis). Enquanto Grupo aprendemos decididamente duas lições:

– Uma corrida às renováveis é crucial, mas manifestamente insuficiente para resolver o problema. Reduzir as emissões significativamente, implica actuarmos sobre todas as fontes, reduzindo o respectivo impacto no planeta. Petróleo e gás natural continuarão a ser produzidos, reduzindo as emissões inerentes à exploração dos mesmos. Os produtos finais serão melhorados, ajudando os consumidores a reduzir emissões resultantes do consumo dos mesmos. Continuaremos a criar e a desenvolver negócios na área das renováveis sustentáveis;

– Por muito relevante e global que seja uma companhia, qualquer outro agente económico ou organismo, nunca conseguirá, per se, ser determinante para a resolução do problema.

Face ao exposto e louváveis considerações econométricas à parte, sobre o valor da vida hoje vs o valor da vida amanhã, urge actuar enquanto sociedade em todas as frentes. Este é um problema que todos em conjunto iremos resolver, não devemos promover nenhuma discriminação positiva relativamente às tecnologias. Devemos sim, enquanto sociedade, definir metas de redução de emissões agressivas e penalizar fortemente todos os infractores. Deste modo, e de maneira muito simples, estaremos a promover os incentivos correctos, para de modo sustentável resolvermos esta equação sem termos necessariamente de descobrir qual o valor de uma vida hoje vs o valor de uma vida amanhã.

Este artigo foi publicado na edição de Janeiro de 2019 da Executive Digest.

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