O último dia dos dinossauros: o que se viu, ouviu e sentiu quando o asteroide atingiu a Terra

Tudo aconteceu há 66 milhões de anos, quando um enorme asteroide atingiu a zona que hoje corresponde à região das Caraíbas

Francisco Laranjeira

Uma Tyrannosaurus rex avança entre coníferas, sente o cheiro de uma carcaça de Triceratops, desce até um lago para beber e ignora crocodilos e tartarugas que fogem para a água. A cena poderia parecer apenas mais um dia no fim do Cretácico. Mas, no céu, uma luz brilhante aproxima-se a grande velocidade. Num texto assinado no site ‘The Conversation’, Michael J. Benton, professor de Paleontologia de Vertebrados na Universidade de Bristol, e Monica Grady, professora de Ciências Planetárias e Espaciais na Open University, reconstruíram o que teria acontecido nas horas, dias e anos que se seguiram ao impacto do asteroide que mudou a história da Terra.

Tudo aconteceu há 66 milhões de anos, quando um enorme asteroide atingiu a zona que hoje corresponde à região das Caraíbas. Na época, o nível do mar era entre 100 e 200 metros mais alto do que atualmente, pelo que o impacto ocorreu em águas pouco profundas, numa área que cobria parte do atual México oriental e do sul dos Estados Unidos. O choque desencadeou alterações imediatas no planeta e na atmosfera, levando à extinção dos dinossauros não aviários e de cerca de metade das espécies então existentes.

Nas 24 horas anteriores, quase nada teria anunciado o desastre. O asteroide, por se dirigir diretamente à Terra, pareceria uma estrela imóvel no céu. Primeiro visível apenas à noite, tornar-se-ia mais brilhante nas horas finais, até poder ser observado durante o dia. Não haveria uma cauda dramática, como num cometa. Apenas um ponto cada vez mais intenso, silencioso para quase todos os seres vivos.

No momento do impacto, a experiência para quem estivesse perto seria curta e absoluta. Primeiro, uma bola de fogo luminosa, acompanhada por sons de crepitação ou fervura provocados pelo aquecimento súbito do solo e do ar. Depois, um estrondo supersónico. Mas o asteroide, com cerca de 10 quilómetros de diâmetro, deslocava-se tão depressa que teria atingido a superfície antes de qualquer animal nas proximidades conseguir reagir.

Em poucos segundos, a energia libertada abriu uma cavidade gigantesca. Rochas foram fraturadas, derretidas e vaporizadas. A temperatura da nuvem incandescente ultrapassou os 10.000 Kelvin, cerca de 9.727 graus Celsius. Cerca de 20 segundos depois do impacto, a cavidade transitória teria pelo menos 30 quilómetros de profundidade, mais do que o ponto mais profundo atualmente conhecido nos oceanos, a Fossa das Marianas. A borda da cratera ergueu-se a mais de 20 quilómetros de altura, mais do dobro do Evereste.

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A dimensão era quase inimaginável, mas durou pouco. Em menos de um minuto, a estrutura começou a colapsar. Três minutos depois, o centro da cratera tinha ressaltado e formado um pico com vários quilómetros de altura, que também acabaria por cair. Perto da zona de impacto, qualquer dinossauro, inseto ou animal marinho teria sido incinerado. Mesmo a 2.000 quilómetros de distância, a radiação térmica e os ventos supersónicos seriam provavelmente fatais.

Cinco minutos depois, os ventos tinham “abrandado” para a força de um furacão de categoria 5, arrasando tudo num raio aproximado de 1.500 quilómetros que ainda não tivesse ardido. As temperaturas atmosféricas na região ultrapassaram os 226 graus Celsius. Como o asteroide atingiu o mar, a atmosfera encheu-se também de vapor sobreaquecido, tornando os ventos ainda mais letais.

Vieram depois os megatsunamis. Ondas com cerca de 100 metros atingiram primeiro as margens do que hoje é o Golfo do México, engolindo terra, arrastando sedimentos e depositando enormes quantidades de detritos quando recuavam. Mais longe, entre 2.000 e 3.000 quilómetros do epicentro, quem tivesse sobrevivido aos primeiros segundos enfrentaria ainda calor extremo, sismos, incêndios, inundações e fragmentos incandescentes projetados pelo impacto.

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Uma hora depois, o desastre já começava a tornar-se global. Poeiras, gotículas de rocha derretida e partículas minerais espalhavam-se pela atmosfera. Em regiões tão distantes como a atual Nova Zelândia ou a Dinamarca, os dinossauros não teriam sentido os tsunamis das Américas, mas veriam o céu começar a escurecer. A partir daí, a ameaça deixou de ser apenas o impacto. Passou a ser o próprio planeta transformado.

Um dia depois, tsunamis ainda com cerca de 50 metros avançavam pelo Atlântico, pelo Pacífico e pelo Índico. Ventos tropicais continuavam a levantar destroços. Incêndios globais lançavam fuligem para a atmosfera. As plantas começaram a comportar-se como se o inverno tivesse chegado, incapazes de fazer fotossíntese com a luz bloqueada. A temperatura começou a cair.

No texto da ‘The Conversation’, os dois cientistas descrevem a semana seguinte como uma descida progressiva para a escuridão. Simulações indicam que, ao fim de cerca de sete dias, a energia solar que chegava à superfície podia ser apenas uma milésima parte da anterior ao impacto. A temperatura média global caiu pelo menos cinco graus Celsius. Muitos dinossauros e grandes répteis voadores e marinhos terão morrido de frio nessa primeira semana.

E depois veio a chuva ácida. O impacto atingiu sedimentos ricos em enxofre, libertando compostos que chegaram à atmosfera. Ao mesmo tempo, a energia da colisão transformou azoto e oxigénio em óxidos de azoto. Quando a temperatura permitiu a condensação do vapor de água, formaram-se ácidos sulfúrico e nítrico. Os primeiros modelos sugerem que a chuva podia atingir um pH próximo de 1, semelhante ao ácido de bateria.

A Terra tornou-se um lugar escuro, frio, ácido e sufocante. Vegetação em decomposição, fumo e aerossóis de enxofre alteraram o cheiro da atmosfera. Árvores morreram à medida que os nutrientes eram lixiviados dos solos. Nos mares pouco profundos, a acidificação destruiu conchas, esqueletos e ecossistemas inteiros. Um ano depois, o Sol ainda não brilhava como antes e a temperatura média à superfície podia estar 15 graus abaixo do período anterior ao impacto.

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Nessa altura, os grandes dinossauros que tivessem sobrevivido aos primeiros dias já teriam desaparecido. Restariam esqueletos em decomposição e pequenos sobreviventes escondidos em fendas, tocas ou ambientes aquáticos. Mamíferos do tamanho de ratos, insetos, tartarugas, pequenos crocodilos, lagartos, cobras e algumas aves terrestres conseguiram resistir melhor do que os gigantes que tinham dominado os ecossistemas.

Dez anos depois, a Terra ainda vivia sob um inverno severo. A maioria do enxofre já tinha saído da atmosfera, mas poeiras e fuligem persistiam. A temperatura média continuava cerca de cinco graus abaixo do normal. Lagos e rios interiores estavam congelados em várias regiões. Ainda assim, a luz começava a regressar, permitindo a recuperação de plantas e fitoplâncton. A vida reconstruía-se, mas já não era a mesma.

Hoje, 66 milhões de anos depois, as marcas desse impacto estão escondidas nas camadas geológicas. Em 1980, Luis Alvarez e outros investigadores identificaram uma concentração anormal de irídio numa camada de argila com essa idade, elemento raro nas rochas da superfície terrestre, mas comum em meteoritos. Durante a década seguinte, sinais semelhantes foram encontrados em vários pontos do planeta. Em 1991, a descoberta da cratera de Chicxulub, parcialmente enterrada sob a Península do Iucatão e o mar, consolidou a explicação do impacto.

A ironia final é que a catástrofe que destruiu os dinossauros abriu caminho à expansão dos mamíferos. Sem esse asteroide, os primatas talvez nunca tivessem alcançado o lugar que ocupam hoje. Mas Benton e Grady deixam também um aviso: os efeitos do impacto foram descritos inicialmente como um “inverno nuclear”, pela queda abrupta da temperatura e pela alteração da atmosfera. Hoje, a comparação que se impõe é outra. A humanidade também está a alterar a composição da atmosfera, ainda que por outros mecanismos.

O último dia dos dinossauros não foi apenas um instante de fogo vindo do céu. Foi uma sequência de luz, som, calor, vento, água, escuridão, frio e ácido. Um fim em camadas. E uma lembrança incómoda de que a vida na Terra pode parecer dominante durante milhões de anos — até o planeta mudar as regras.

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