Vídeos e imagens criados por inteligência artificial com soldados russos na guerra da Ucrânia estão a tornar-se cada vez mais populares nas redes sociais, sobretudo entre familiares de militares mortos ou desaparecidos, relata a ‘BBC’. Em muitos casos, os conteúdos mostram os soldados a regressar a casa, a abraçar mulheres e filhos ou a subir escadas rumo ao céu, numa encenação digital que mistura luto, fantasia e heroização da guerra.
Num dos vídeos descritos pela ‘BBC’, uma rua nevada de Moscovo surge coberta por cartazes fictícios que anunciam o fim da chamada “operação militar especial”, a expressão usada pelo Kremlin para se referir à invasão da Ucrânia. Um homem em uniforme militar regressa, enquanto uma mulher com um carrinho de bebé se vira e o abraça em lágrimas. Na realidade, o soldado que terá inspirado a cena desapareceu na frente de combate e o seu destino continua desconhecido.
Este tipo de conteúdo ganhou força desde meados de 2025. Quase sempre, os soldados russos são apresentados como heróis que defendem o país e as suas famílias. A Ucrânia, a destruição causada pela invasão russa e as vítimas ucranianas ficam normalmente ausentes destas imagens, o que tem provocado indignação entre muitos ucranianos que encontram estes vídeos online.
Para algumas famílias russas, os vídeos gerados por IA funcionam como uma forma de lidar com despedidas que nunca aconteceram. Há casos em que ‘deepfakes’ com pessoas mortas são usados em funerais ou em homenagens privadas. Mas as reações estão longe de ser consensuais: alguns utilizadores dizem ter chorado ao ver as imagens, enquanto outros consideram a prática antiética, perturbadora e uma forma de explorar a dor.
Katarzyna Nowaczyk-Basińska, investigadora do Leverhulme Centre for the Future of Intelligence, da Universidade de Cambridge, diz à ‘BBC’ que a criação de ‘deadbots’ ou ‘deepfakes’ de soldados russos mortos é eticamente difícil de avaliar de forma simples. A especialista sublinha que ainda se sabe pouco sobre o impacto psicológico e social de longo prazo destas tecnologias no processo de luto.
Um dos nomes citados é o da ‘blogger’ conhecida online como Katya Jin, que publicava vídeos deste tipo para milhões de seguidores no TikTok e no Instagram. Além dos conteúdos, partilhava tutoriais sobre como produzi-los e permitia que seguidores encomendassem vídeos semelhantes com os seus próprios familiares, bastando enviar fotografias e indicar o tipo de cena pretendida.
As encomendas podiam transformar mortos ou desaparecidos em protagonistas de reencontros impossíveis. Um casal podia surgir num cenário romântico, uma carta de despedida podia ser colocada nas mãos de um familiar já morto e soldados caídos na frente eram frequentemente representados a abraçar os seus entes queridos antes de caminharem para o céu, muitas vezes rodeados por anjos.
Anna Korableva, de Kamensk-Uralsky, começou a produzir vídeos de despedida com a irmã em maio de 2025. À ‘BBC’, explicou que o objetivo do projeto é ajudar pessoas a lidar com “despedidas inacabadas” e dar-lhes a sensação de poderem voltar a abraçar maridos, pais ou filhos. Segundo Korableva, a maioria dos pedidos vem de famílias de soldados mortos na Ucrânia desde a invasão russa em grande escala, em 2022.
O Governo russo não divulga números fiáveis de baixas, mas a ‘BBC’, em conjunto com o meio russo ‘Mediazona’ e uma equipa de voluntários, já verificou a morte de pelo menos 225 mil soldados russos na guerra. O número real será mais elevado, o que ajuda a explicar a dimensão potencial deste mercado emocional em torno da perda.
A prática também se tornou uma fonte de rendimento. Como várias ferramentas internacionais de IA generativa são difíceis de aceder a partir da Rússia, muitos familiares recorrem a criadores especializados. Os preços podem variar entre 200 rublos, cerca de dois euros, e 10 mil rublos, cerca de 100 euros. Uma criadora disse ganhar entre 150 mil e 200 mil rublos por mês, cerca de 1.500 a 2.000 euros, aproximadamente o dobro do salário médio mensal na Rússia.
Para os críticos, este mercado está perigosamente próximo de transformar o luto em negócio. Alguns utilizadores acusam os criadores de explorarem a dor das famílias e de lucrarem com mortos apresentados como figuras angelicais, enquanto a destruição causada pela Rússia na Ucrânia desaparece das imagens. Um comentário ucraniano citado pela ‘BBC’ acusa essas representações de mostrarem como “heróis” homens que foram ganhar “dinheiro de sangue” matando crianças ucranianas.
A indústria faz parte de um fenómeno mais amplo de “vida digital após a morte”, que já inclui avatares póstumos em museus, tribunais e campanhas políticas. Mas o contexto da guerra torna estes vídeos particularmente sensíveis. A tecnologia pode oferecer a ilusão de um último abraço, mas também pode prolongar a dor, romantizar a morte e limpar visualmente a violência de uma guerra real.
Algumas pessoas que encomendaram estes conteúdos disseram que os vídeos pouco fizeram para aliviar a perda. “A tecnologia podia ajudar-me a aceitar que nunca mais vou abraçar o meu filho? Não. É uma ilusão”, afirmou uma mulher. Ainda assim, outras pessoas continuam a ver nestas imagens uma forma de ligação, mesmo sabendo que o reencontro existe apenas num mundo artificial.













