“O seu futuro está nas mãos de um sistema que falhou”: especialista alerta para o impacto do caos dos exames nos alunos

A psicóloga Catarina Lucas falou à ‘Executive Digest’ para analisar os efeitos nos jovens estudantes da confusão que tem reinado na correção dos exames mais importantes do seu percurso escolar

Francisco Laranjeira

Prepararam-se durante anos, fizeram exames que podem decidir o curso e a universidade a que terão acesso e, agora, esperam pelas classificações num ambiente marcado por atrasos, falhas técnicas, respostas desaparecidas e dúvidas sobre a fiabilidade da correção. Para milhares de alunos do ensino secundário, a ansiedade habitual desta fase foi agravada por uma pergunta difícil de afastar: será que a nota final corresponde realmente ao exame que entregaram?

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A classificação dos cerca de 300 mil exames nacionais ficou marcada por falhas técnicas, correções repetidas e professores chamados à última hora, numa corrida contra o tempo para cumprir o calendário.

O Ministério da Educação reconheceu problemas na digitalização, incluindo folhas de resposta em falta, páginas mal processadas e casos em que o ficheiro digital não correspondia integralmente à prova em papel. Alguns docentes tiveram mesmo de corrigir duas ou três vezes as mesmas respostas.

Fernando Alexandre pediu desculpa aos professores, mas garantiu que os mecanismos de controlo estavam a ser usados para assegurar que cada classificação corresponde ao exame efetivamente realizado pelo aluno. As notas deverão ser divulgadas na sexta-feira, antes da segunda fase, marcada para 20 a 24 de julho.

Quando a confiança no processo desaparece

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Para os alunos, porém, a sucessão de problemas pode ter consequências que vão além da irritação ou do nervosismo momentâneo. “Quando um aluno sente que o processo de avaliação deixou de ser fiável, pode surgir um forte sentimento de frustração e impotência”, explica à ‘Executive Digest’ a psicóloga Catarina Lucas.

A especialista sublinha que a sensação de que o esforço poderá não ser justamente reconhecido aumenta a ansiedade, a insegurança e a perda de confiança. “Esta perda de confiança pode afetar a motivação e a autoestima”, alerta, lembrando que é fundamental reforçar junto dos jovens que o seu valor não depende de um único exame ou de uma classificação.

A incerteza é particularmente difícil de gerir quando a nota pode condicionar diretamente a entrada num curso ou numa instituição de ensino superior. Segundo Catarina Lucas, a ausência de controlo sobre o processo pode levar os alunos a anteciparem constantemente o pior cenário e a interpretarem qualquer falha como uma ameaça ao seu futuro.

“É importante ajudar o aluno a distinguir aquilo que pode controlar daquilo que depende de fatores externos”, afirma. A psicóloga defende que o jovem deve ser recordado de que existem diferentes percursos para atingir os mesmos objetivos académicos, mesmo quando o resultado não corresponde às expectativas iniciais.

Os sinais de ansiedade a que famílias e professores devem estar atentos

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O clima criado em torno da correção dos exames pode aumentar significativamente os níveis de ansiedade, sobretudo entre alunos que já estavam sujeitos a uma forte pressão académica e familiar. Alterações do sono, irritabilidade, isolamento, dificuldades de concentração ou crises de ansiedade são alguns dos sinais a que famílias e professores devem estar atentos.

“Quando estes sintomas persistem ou interferem no dia a dia, é importante procurar apoio psicológico”, recomenda Catarina Lucas. A especialista salienta que não basta dizer ao aluno para não pensar no exame ou garantir que tudo acabará por correr bem. As emoções devem ser reconhecidas, sem dramatização, mas também sem serem desvalorizadas.

Durante os dias que antecedem a divulgação das pautas, manter rotinas, praticar atividade física e reservar tempo para atividades agradáveis pode ajudar a reduzir a ansiedade. A psicóloga aconselha ainda os jovens e as famílias a evitarem conversas permanentes sobre as provas, previsões sucessivas sobre as notas ou comparações com colegas.

“O foco deve estar no presente e não em cenários hipotéticos”, explica. Embora seja útil preparar diferentes possibilidades, esse exercício deverá ser feito de forma serena, sem transformar cada alternativa num sinal de fracasso antecipado.

As famílias têm, nesta fase, um papel decisivo. Devem transmitir segurança, mostrar disponibilidade para ouvir e evitar que o ambiente familiar fique inteiramente dominado pelos exames. “O essencial é que o aluno sinta que o apoio da família não depende dos resultados”, sublinha Catarina Lucas.

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Uma nota pode mudar o percurso, mas não define o futuro

Quando as notas forem divulgadas, alguns jovens poderão sentir que a classificação não corresponde ao trabalho realizado ou às expectativas criadas. Nesses casos, a primeira resposta deverá passar por acolher a desilusão, em vez de a minimizar com frases como “não é o fim do mundo” ou “para o ano tentas outra vez”.

“É importante ajudar o jovem a explorar as opções disponíveis e a perceber que um resultado não define o seu futuro”, afirma a psicóloga. O apoio emocional da família e da escola será particularmente importante para os alunos que sintam ter sido prejudicados ou que associem a classificação a uma perda irreversível.

A partir desta sexta-feira, os estudantes terão acesso às provas em formato digital, uma novidade introduzida este ano. Esse acesso poderá permitir uma avaliação mais clara de eventuais erros ou omissões, mas também poderá reabrir a tensão em torno de um processo que já foi marcado por sucessivas falhas.

Para Catarina Lucas, a mensagem central deve ser inequívoca: uma nota pode alterar um percurso imediato, mas não resume as capacidades, o esforço ou o futuro de um jovem. Quando o sistema gera insegurança, cabe aos adultos devolver alguma estabilidade — não prometendo resultados, mas garantindo que nenhum aluno terá de enfrentar sozinho aquilo que vier depois.

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