O segundo fantasma que desapareceu do relógio: porque já não vemos 23:59:60 há quase dez anos

Houve uma noite, a 31 de dezembro de 2016, em que os relógios digitais chegaram a marcar uma hora que parece errada: 23:59:60. Desde então, esse segundo extra nunca mais voltou a aparecer

Francisco Laranjeira

Houve uma noite, a 31 de dezembro de 2016, em que os relógios digitais chegaram a marcar uma hora que parece errada: 23:59:60. Desde então, esse segundo extra nunca mais voltou a aparecer. E, segundo explica o ‘IFL Science’, também não será acrescentado em junho, ficando a próxima possibilidade para o final de 2026.

A explicação começa numa ideia que parece simples, mas não é: quanto tempo demora a Terra a rodar sobre o seu próprio eixo? A resposta intuitiva é 24 horas. Está aproximadamente certa, mas é demasiado imprecisa para um mundo dependente de satélites, GPS, comunicações globais, redes elétricas, mercados financeiros e sistemas digitais sincronizados ao milésimo de segundo.

É aqui que entram os relógios atómicos. O tempo oficial moderno é medido com uma precisão muito superior à rotação irregular da Terra. Nos Estados Unidos, por exemplo, o NIST UTC é calculado a partir da média de 16 relógios atómicos, usando a radiação associada ao átomo de césio-133. Sem essa precisão, o GPS deixaria de funcionar corretamente, as transações financeiras perderiam sincronização e até os carimbos temporais dos emails deixariam de ter a mesma fiabilidade.

O problema é que a Terra não é um relógio perfeito. Em termos gerais, a rotação do planeta tem vindo a abrandar, em grande parte devido à influência da Lua, que se afasta lentamente da Terra. Para manter o tempo civil alinhado com a rotação real do planeta, os cientistas introduziram, ao longo das décadas, o chamado segundo intercalar, acrescentando ocasionalmente um segundo ao ano.

O dia em que o relógio chegou aos 60 segundos

Continue a ler após a publicidade

Quando isso acontece, o minuto final do dia não termina em 23:59:59. Passa por 23:59:60 antes de chegar à meia-noite. É uma correção minúscula, mas importante para manter o tempo dos relógios alinhado com o movimento real da Terra.

Durante muito tempo, esta correção foi necessária, em média, a cada ano e meio. Mas a Terra começou a comportar-se de forma menos previsível. Apesar de a tendência de longo prazo ser de desaceleração, a rotação do planeta acelerou nos últimos anos.

Desde o início dos registos com relógios atómicos, na década de 1960, a Terra vinha, em média, a abrandar. Porém, essa tendência inverteu-se em 2020, ano em que o recorde do dia mais curto foi quebrado 28 vezes. Por isso, em vez de acrescentar segundos, chegou mesmo a discutir-se a possibilidade oposta: retirar um segundo ao tempo oficial, criando um segundo intercalar negativo.

Continue a ler após a publicidade

Essa medida, porém, ainda não foi considerada necessária. Para já, a conclusão do ‘International Earth Rotation and Reference Systems Service’ é mais discreta: não será preciso acrescentar qualquer segundo em junho.

A Terra mexe-se, e o tempo também

A rotação da Terra não muda apenas por causa da Lua. Qualquer grande redistribuição de massa pode ter efeitos, mesmo que minúsculos, na duração do dia.

O ‘IFL Science’ recorda, por exemplo, o sismo de magnitude 9.0 que atingiu o Japão em 2011. O terramoto deslocou massas de terra e acelerou a rotação do planeta em cerca de 1,8 microssegundos. A própria massa terrestre japonesa terá sido deslocada em até 4 metros.

Outro exemplo frequentemente citado é a Barragem das Três Gargantas, na China. A estrutura é tão grande e consegue reter tanta água que pode aumentar a duração do dia terrestre em cerca de 0,06 microssegundos. São valores impercetíveis para a vida diária, mas relevantes para medições científicas extremamente precisas.

Continue a ler após a publicidade

A razão exata para a aceleração recente da rotação da Terra ainda não é totalmente clara. Entre as hipóteses apontadas estão alterações na distribuição da massa do planeta, incluindo o degelo de glaciares e o armazenamento de água em reservatórios do hemisfério norte.

O planeta não segue o nosso relógio

A história do segundo intercalar é uma boa lembrança de que o tempo que usamos todos os dias é uma construção técnica para domesticar um planeta em movimento. A Terra roda, abranda, acelera ligeiramente e reage à redistribuição de massas na sua superfície.

Durante centenas de milhares de anos, a humanidade viveu sem precisar desta precisão. Hoje, porém, a navegação aérea, os satélites, o GPS, as redes elétricas, as comunicações digitais e os mercados financeiros dependem de uma coordenação temporal quase perfeita.

Por isso, aquele estranho 23:59:60 não é um erro de relógio nem uma curiosidade sem importância. É o sinal visível de uma negociação permanente entre dois tempos diferentes: o tempo impecável dos átomos e o tempo imperfeito da Terra.

Se não houver alteração no final de 2026, ficará assinalada uma década completa sem segundos intercalares. O relógio continuará a saltar de 23:59:59 para 00:00:00, como se nada se passasse. Mas, por baixo dessa normalidade, o planeta continuará a lembrar que nunca prometeu rodar exatamente ao ritmo que inventámos para ele.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.