“O risco de estarmos interligados sem confiança”: especialista traça o mapa da ‘nova desordem mundial’ que Trump acelerou

Teresa Duarte Fernandes, especialista em Relações Internacionais, falou em exclusivo à ‘Executive Digest’ para explicar um mundo em que os aliados desconfiam cada vez mais uns dos outros e os inimigos estão cada vez mais próximos

Francisco Laranjeira

Desde o regresso de Donald Trump ao centro do poder americano, o mundo entrou numa fase em que velhas certezas estratégicas parecem cada vez menos sólidas. A relação entre aliados tornou-se mais cautelosa, o comércio voltou a ser usado como arma política, a força militar regressou ao centro das mensagens diplomáticas e a previsibilidade que durante décadas acompanhou Washington passou a ser vista como um ativo menos garantido.

Ao mesmo tempo, conflitos regionais, choques nas cadeias de abastecimento e rivalidades entre grandes potências mostram que a instabilidade já não depende apenas de guerras abertas. Basta um bloqueio marítimo, uma tarifa, uma rutura tecnológica ou uma decisão unilateral para provocar efeitos em cascata muito para lá do país de origem.

Para Teresa Duarte Fernandes, especialista em Relações Internacionais, o problema não pode ser reduzido a uma só figura política. Donald Trump acelerou tendências, agravou ruturas e expôs fragilidades, mas a nova desordem mundial nasce de algo mais profundo: um sistema global altamente interligado, mais competitivo e cada vez menos protegido por instituições eficazes.

“O cenário internacional atual reflete o risco associado a um sistema de interdependência económica, em que o controlo das cadeias de produção e abastecimento se apresenta como um dos principais instrumentos de pressão e coerção política”, afirma, em declarações à ‘Executive Digest’.

A frase ajuda a perceber a mudança central dos últimos anos: o poder já não passa apenas por tanques, bases militares ou armas nucleares. Passa também por minerais críticos, portos estratégicos, fertilizantes, chips, energia e plataformas digitais.

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O teste americano começa em casa

Para a especialista, antes de discutir o eventual legado internacional de Trump, há uma questão mais imediata: a margem de manobra interna do presidente americano.

Teresa Duarte Fernandes sublinha que a atual administração tem procurado explorar os limites legais e institucionais do sistema americano, recorrendo a mecanismos de emergência e instrumentos executivos para acelerar decisões políticas.

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“As ‘midterms’ de novembro serão determinantes para perceber se o sistema de freios e contrapesos americano sai reforçado ou enfraquecido”, explica.

Mais do que uma eleição intermédia, o voto deste ano será lido como referendo à liderança de Trump e à aceitação doméstica do estilo de governação que tem marcado este novo ciclo.

Se sair reforçado, ganhará mais espaço para projetar poder externo. Se encontrar resistência acrescida no Congresso, poderá ver limitada parte dessa capacidade.

“A Europa não consegue defender-se sozinha”

É no lado europeu que esta incerteza se torna mais sensível.

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Durante décadas, o continente habituou-se a viver sob a proteção estratégica americana. O problema, nota Teresa Duarte Fernandes, é que essa dependência continua elevada num momento em que Washington já não transmite o mesmo grau de previsibilidade.

A Europa está preparada para se defender sem os Estados Unidos?

“A resposta curta é que a Europa ainda não consegue defender-se sozinha. Foram décadas de uma larga confiança na contribuição americana, nas quais a Europa deu prioridade a outros objetivos políticos e económicos, um caminho não se inverte rapidamente.”

A especialista do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa recorda que o desafio europeu não é apenas militar. É também político, industrial e operacional.

Coordenar 27 Estados-membros com prioridades diferentes, acelerar produção de defesa, fazer compras conjuntas, flexibilizar regras orçamentais e construir uma cultura estratégica comum são tarefas que exigem tempo num momento em que o tempo escasseia.

Ainda assim, deixa uma nuance importante: a Europa não procura independência total dos aliados. Procura reduzir vulnerabilidades e ganhar autonomia estratégica suficiente para responder se for necessário.

O Irão mostrou mais do que uma guerra regional

A recente escalada com o Irão, acrescenta, deve ser lida para além do confronto militar imediato.

Na sua visão, o caso revelou como um ator regional continua capaz de gerar perturbação global através de um ponto crítico do sistema internacional: o Estreito de Ormuz.

Por essa via passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Qualquer ameaça séria à circulação marítima naquela zona tem impacto direto nos preços da energia, nos transportes, nos custos industriais e até nas cadeias agroalimentares.

“Ao asfixiar esta via, o Irão não só desafia Washington, como provoca um efeito de contágio global que afeta desde os preços da energia até às cadeias agroalimentares”, resume.

A conclusão é clara: hoje, uma crise localizada pode transformar-se rapidamente num choque económico internacional.

“O maior rival económico dos EUA é a China”

Apesar do ruído criado por crises no Médio Oriente, Teresa Duarte Fernandes insiste que o confronto estrutural decisivo continua a ser outro.

“O maior rival dos Estados Unidos, especialmente no âmbito económico, é sem dúvida a China.”

Segundo a especialista, Washington procura reduzir dependências em setores críticos como alta tecnologia e cadeias de abastecimento, enquanto Pequim acelera a autossuficiência tecnológica, reforça infraestruturas externas e amplia influência junto do Sul Global e da Europa.

A disputa já não é apenas comercial. É tecnológica, industrial, energética e estratégica.

Quem dominar semicondutores, inteligência artificial, materiais críticos e redes logísticas terá vantagem decisiva na próxima década.

A confiança dos aliados já mudou

Mesmo que Trump saia de cena mais tarde, a especialista considera que parte do dano estratégico já está feito.

A confiança transatlântica, explica, foi substituída por uma postura mais prudente e relutante. Os aliados europeus perceberam que a política americana pode oscilar mais depressa e de forma mais brusca do que durante décadas se assumiu.

Isso não significa rutura irreversível. Mas significa uma relação diferente.

O futuro dependerá não só da capacidade dos Estados Unidos provarem que continuam a ser parceiro fiável, mas também da capacidade europeia para lidar com um Washington que passará a ser visto com maior cautela.

2030: menos previsível, mais duro

Quando olha para o fim da década, Teresa Duarte Fernandes vê uma ordem internacional mais fragmentada, mais competitiva e menos assente em automatismos multilaterais.

A NATO tenderá a adaptar-se a uma liderança americana mais transacional. A Europa será pressionada a reforçar peso próprio em matéria de defesa. Potências como Índia, China e Rússia continuarão a jogar em várias frentes. E atores privados, com controlo de tecnologia crítica e infraestruturas estratégicas, terão influência crescente.

No fundo, a nova desordem mundial não nasce apenas de um homem forte ou de uma eleição polarizada.

Nasce de algo maior: um sistema onde todos dependem de todos, mas cada vez menos confiam uns nos outros.

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