O que são os ‘medicanes’? Os ciclones do Mediterrâneo que preocupam cientistas

Mediterrâneo é particularmente vulnerável porque é uma das regiões costeiras mais densamente povoadas do mundo

Francisco Laranjeira

Parecem fenómenos tropicais deslocados para o lugar errado: ciclones com estrutura em espiral, ventos violentos perto do centro, chuva intensa e, por vezes, um “olho” bem definido. Mas acontecem no Mediterrâneo. Num artigo publicado no ‘The Conversation’, Emmanouil Flaounas, investigador sénior em ciências da atmosfera e do clima no Swiss Federal Institute of Technology Zurich, e Davide Faranda, diretor de investigação do CNRS na Université Paris-Saclay, explicam porque é que os chamados ‘medicanes’ podem tornar-se mais perigosos com o aquecimento global.

O termo nasce da junção entre Mediterrâneo e ‘hurricane’, furacão em inglês. Os ‘medicanes’ são ciclones mediterrânicos com características semelhantes às dos ciclones tropicais, embora não sejam idênticos. São conhecidos desde os anos 80 e continuam a ser relativamente raros: ocorrem, em média, menos de três vezes por ano.

A raridade, no entanto, não os torna inofensivos. Em março de 2026, o ciclone Jolina provocou danos significativos no Norte de África. Antes disso, as tempestades Ianos, em 2020, e Daniel, em 2023, causaram estragos graves na Grécia. Daniel prosseguiu depois até à Líbia, onde esteve associado a uma catástrofe humanitária na cidade de Derna, com milhares de mortos ou desaparecidos.

O perigo destes sistemas não está apenas no vento. Segundo os autores, as inundações causadas por precipitação intensa e extensa são o risco mais grave, muitas vezes afetando áreas muito para lá do centro do ciclone e atingindo zonas de escala nacional ou internacional. Ainda assim, os ventos junto ao centro também podem ser muito violentos, tornando essencial prever com precisão a trajetória e o ponto de chegada à costa.

O Mediterrâneo é particularmente vulnerável porque é uma das regiões costeiras mais densamente povoadas do mundo. Em 2020, os países mediterrânicos tinham cerca de 540 milhões de habitantes, aproximadamente um terço dos quais vivia em zonas costeiras. Quando um destes ciclones avança sobre a costa, os seus efeitos podem atravessar fronteiras e atingir vários países.

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A ligação ao aquecimento global passa pelo mar. Tal como outras tempestades, os ‘medicanes’ retiram energia do calor acumulado na superfície marítima. E a temperatura do Mediterrâneo está a subir. De acordo com o Atlas do serviço Copernicus sobre alterações climáticas, citado no artigo, a região aqueceu cerca de 0,4ºC por década entre 1990 e 2020, uma tendência clara e em aceleração.

À primeira vista, esse número pode parecer pequeno. Mas, em física atmosférica, diferenças de 1ºC ou 2ºC podem ter efeitos relevantes na velocidade do vento e na intensidade da precipitação. Além disso, a média do Mediterrâneo esconde variações locais: em alguns episódios de ‘medicanes’, já foram registadas temperaturas da superfície do mar superiores em mais de 2ºC ao normal.

Uma água mais quente aumenta a evaporação e transfere mais calor para a atmosfera, fornecendo energia ao desenvolvimento e intensificação das tempestades. Por isso, o aquecimento do Mediterrâneo pode não tornar estes fenómenos necessariamente muito mais frequentes, mas tende a aumentar a sua capacidade destrutiva, sobretudo através de chuva mais intensa.

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Estudos recentes apontam nesse sentido. Uma investigação publicada em 2022 sobre a tempestade Apollo, em 2021, concluiu que temperaturas mais elevadas da superfície do mar e uma atmosfera mais quente aumentaram a disponibilidade de humidade e a precipitação extrema sobre a Sicília. Análises posteriores à tempestade Daniel também indicaram que a chuva extrema no leste do Mediterrâneo e na Líbia foi intensificada pelas alterações climáticas.

A ciência tem avançado. Em 2025, um esforço internacional resultou numa definição formal dos ‘medicanes’, ajudando a separar estes fenómenos de outros tipos de tempestades mediterrânicas. Essa definição é importante porque permite melhorar a recolha de dados, comparar eventos e desenvolver modelos de previsão mais fiáveis.

Mas ainda há muito por fazer. Como estes ciclones são raros, as séries estatísticas continuam limitadas. É difícil tirar conclusões definitivas sobre onde e quando irão ocorrer, e por isso os investigadores defendem mais monitorização, melhores modelos climáticos e sistemas de alerta precoce mais eficazes.

No fundo, os ‘medicanes’ são uma espécie de aviso meteorológico sobre o futuro do Mediterrâneo. Um mar mais quente não é apenas uma questão de verões mais longos, praias mais cheias ou ondas de calor marinhas. Pode também ser combustível para tempestades raras, mas capazes de deixar marcas profundas quando encontram populações, cidades e infraestruturas no caminho.

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