Emprego: o que querem afinal os millennials?

A diversidade e a flexibilidade são fundamentais para a retenção destas gerações, numa altura em que se assiste ao crescimento da Gig Economy, adianta o estudo, referindo que os millennials e a Geração Z não se sentem preparados para as mudanças da Indústria 4.0 e esperam que as empresas os ajudem a enfrentar esta nova era.

A geração millennial sente-se insegura em relação ao futuro. O avanço das denominadas tecnologias da Indústria 4.0, da robótica à inteligência artificial, passando pela internet das coisas, está a alterar profundamente a natureza do trabalho, ao mesmo tempo que as perturbações políticas desafiam a ordem estabelecida.

Neste enquadramento, os millennials e a Geração Z anseiam por líderes cujas decisões possam beneficiar o mundo, em geral, e as suas carreiras, em particular. E embora reconheçam que alguns líderes estão a começar a olhar para as questões sociais, estão mais cépticos em relação à motivação e à ética das empresas.

Num ambiente social e politicamente fragmentado, com o despontar da Indústria 4.0 a trazer profundas alterações, muitos millennials revelam um desejo por maior segurança. Sentem-se mais pessimistas acerca das perspectivas de progresso social e político e revelam preocupação com a segurança, a desigualdade social e a sustentabilidade ambiental. E enquanto os jovens trabalhadores acreditam que as empresas devem considerar também os interesses dos seus stakeholders, além do lucro, a verdade é que eles acreditam que as empresas estão sobretudo a dar prioridade ao bottom line em relação aos trabalhadores, à sociedade em geral e ao meio ambiente.

As duas últimas edições do estudo revelaram um maior nível de confiança dos millennials em relação à motivação e à ética das empresas, mas em 2018 há uma inversão radical. A percepção desta geração em relação ao mundo dos negócios atingiu o nível mais baixo dos últimos quatro anos. Hoje, menos de metade dos millennials acredita que as empresas se comportam de forma ética (48% face a 65% em 2017) e que os líderes empresariais estão empenhados em criar um impacto positivo na sociedade (47% face a 62% em 2017).

Tal como foi realçado nas últimas seis edições, os millennials – e agora a Geração Z – acreditam que as empresas têm um papel mais amplo na sociedade e, na sua maioria, consideram que o sucesso do negócio deve ser medido para além do desempenho financeiro.

Os inquiridos acreditam que as prioridades das empresas devem ser a criação de emprego, a inovação, a melhoria das condições de vida e das carreiras dos colaboradores e a criação de um impacto positivo na sociedade e no meio ambiente. No entanto, quando questionados sobre as prioridades das organizações onde trabalham, revelam que estão focadas em gerar lucro, aumentar a eficiência e produzir ou vender bens e serviços – as três áreas que, para eles, deveriam ter o menor foco. Embora reconheçam que as empresas têm de obter lucro para concretizar as suas prioridades, os millennials acreditam que deve ser feito um maior esforço para equilibrar o desempenho financeiro e as questões sociais.

«Os resultados desta edição do estudo mostram que as alterações sociais, tecnológicas e geopolíticas sentidas no ano passado alteraram a forma como os millennials e a Geração Z vêem as empresas e isso deve servir de alerta para os líderes empresariais», afirma Sérgio do Monte Lee, partner da Deloitte. «Estas gerações sentem que os líderes estão muito focados nas agendas das suas empresas e pouco preocupados com a contribuição para a sociedade. Para conquistar a confiança e a lealdade destas gerações, as empresas devem encontrar formas de impactar positivamente as comunidades locais e focar-se em questões como a diversidade, a inclusão e a flexibilidade.»

DÉFICE DE CONFIANÇA

E se os millennials vêem as empresas de forma mais negativa, a sua confiança nos líderes políticos é ainda menor. Quando questionados sobre o desempenho de determinados líderes – incluindo líderes de Organizações Não Governamentais/Sem Fins Lucrativos, líderes empresariais, religiosos e políticos – apenas 19% dos millennials acredita que os políticos estão a ter um impacto positivo (71% considera negativo).

Por outro lado, 44% dos millennials acredita que os líderes empresariais estão a ter um impacto positivo e acredita na sua capacidade de contribuir para uma mudança positiva da sociedade. Três quartos dos millennials acredita que as empresas multinacionais podem ajudar a resolver os desafios económicos, ambientais e sociais. Estes resultados mostram que os millennials acreditam que as empresas se devem envolver na melhoria da sociedade, além de criar empregos e gerar lucros.

AS CHAVES PARA A RETENÇÃO

Como revelado em estudos anteriores, as empresas e as equipas de gestão mais alinhadas com os millennials, em termos de objectivos, cultura e desenvolvimento profissional, têm maior potencial para atrair e reterem o melhor talento millennial e, por isso, atingirem melhores resultados financeiros.

A lealdade deve ser conquistada, numa geração que está sempre disposta Y a mudar de emprego e a fazê-lo de forma muito rápida, sempre em busca de uma melhor experiência profissional.

Os níveis de lealdade recuaram para o ponto onde estavam há dois anos. De acordo com o estudo, 43% dos millennials tenciona deixar o seu local de trabalho dentro de dois anos (face a 38% em 2017) e apenas 28% espera ficar mais de cinco anos (face a 31% em 2017). Entre os millennials, que consideram deixar o seu trabalho nos próximos dois anos, 62% considera a “gig economy” como uma alternativa ao emprego a tempo inteiro. A lealdade é ainda menor entre os inquiridos da Geração Z, com 61% a afirmar que tenciona deixar o seu emprego actual dentro de dois anos.

Tanto os millennials como a Geração Z valorizam factores como a tolerância, inclusão, respeito e diversidade. Do ponto de vista das empresas, a remuneração e a cultura são os factores que mais atraem estas gerações, no entanto, estas devem focar-se na diversidade, inclusão e flexibilidade, que podem ser a chave para a sua retenção. Os inquiridos que trabalham em empresas com equipas de trabalho diversificadas e geridas por seniores têm uma maior propensão para ficar cinco ou mais anos na mesma empresa. Entre estes, 55% afirma que agora o seu local de trabalho é mais flexível do que há três anos.

POUCO PREPARADOS PARA A INDÚSTRIA 4.0

Os millennials e a Geração Z estão bastante conscientes do impacto da Indústria 4.0 no seu trabalho e acreditam que vai libertar as pessoas das actividades mais rotineiras, dando-lhes mais tempo para desenvolver um trabalho mais criativo. No entanto, muitos estão desconfortáveis com a sua chegada: 17% dos millennials inquiridos e 32% dos que estão em empresas, que já usam intensivamente estas tecnologias, temem que o seu trabalho seja substituído, em parte ou na totalidade. Além disso, menos de quatro em cada dez millennials e três em cada dez inquiridos da Geração Z sentem que têm as competências necessárias para ter sucesso e esperam que as empresas os ajudem a preparar-se para esta nova era.

De acordo com o estudo da Deloitte, os inquiridos procuram desenvolver competências mais amplas do que o conhecimento técnico. Os jovens profissionais desejam obter ajuda especialmente no desenvolvimento de competências pessoais (soft skills), como a confiança, as relações interpessoais e, particularmente para a Geração Z, a aptidão ética/integridade. No entanto, na sua opinião, as empresas não estão a responder às suas necessidades de desenvolvimento. Apenas 36% dos millennials e 42% dos inquiridos da Geração Z afirma que os seus empregadores estão a ajudá-los a compreender e prepararem-se para as mudanças associadas à Indústria 4.0.

«As mudanças significativas nos níveis de lealdade são uma oportunidade única para as empresas potenciarem a atracção e retenção de talento», explica Sérgio do Monte Lee, partner da Deloitte. «As empresas devem ouvir o que a geração millennial está a dizer e repensar a forma como abordam a gestão de talento.»

in Revista Risco nº 10 (outono 2018)

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