O que é que o Charlie Brown tem a ver com People Analytics?

Por Isabel Moço, coordenadora e professora da Universidade Europeia

Restam poucas dúvidas, embora ainda nem todos tenham dado os passos essenciais, sobre a importância determinante que pode ter o Analytics na Gestão de pessoas. Historicamente, a gestão de pessoas tem sido menos analítica, e evoluído mais lentamente nesse domínio, que outras áreas de gestão, alegando frequentemente “pessoas e não números”. Certo, mas e se os números suportarem e contribuírem para um estilo de gestão mais humanizada? É precisamente nessa lógica que se defende e promove a integração de recolha, tratamento e análise de dados, e decisão suportada nos mesmos, como uma tarefa central do gestor de pessoas da atualidade e do futuro, porque não se pode continuamente fugir à evolução e requisitos na gestão da atualidade.Quantas empresas “têm” dados ilimitados e os mesmos não são considerados para uma gestão mais próxima e focada nas pessoas?

Os dados não tomam decisões, não implementam políticas e procedimentos, bem como não promovem e monitorizam práticas, mas o gestor que o fizer, suportado nesta informação, decerto será muito mais eficaz, poderá melhorar substancialmente a experiência das suas pessoas, melhorar os indicadores de desempenho das propostas e iniciativas de Rh, por melhor contribuir o para o propósito da empresa e os resultados do negócio. Trata-se, pois, de uma nova competência (considerando todo o espectro de Analytics – Análise descritiva, preditiva e prescritiva), que sem dúvida será requerida aos futuros gestores de pessoas. Atualmente, talvez apenas a organização de cariz mais tradicional abdique ainda dos dados e das potencialidades que podem trazer – se preparados e cuidados por quem tenha essas competências e o objetivo de, efetivamente, gerir bem pessoas.

Nesta reflexão sobre como evolui, e evoluirá, a gestão de pessoas, fui “levada” para as tardes de verão que passava com um livro na mão, e recordei-me de uma coleção, no rol das minhas preferidas: Os Peanuts, onde o Charlie Brown e o Snoopy eram as minhas personagens de eleição.  Mas que tem isto que ver com Analytics em Gestão de Pessoas? Vejamos: Charlie Brown é muito responsável e dedicado, sobretudo a tratar de Snoopy e a mobilizar a equipa, mas por vezes deveria desistir, ou encontrar outro caminho, e perceber que por mais que tente ajudar outros personagens do grupo, simplesmente não consegue. Ele falha, e tenta, e tenta, e tenta… se por um lado, essa característica é boa – chamamos-lhe resiliência, por outro lado até dá um certo dó ver como se esforça, como se dedica, como insiste, e sem resultados.

Alguns exemplos: tantas vezes tenta lançar um papagaio de papel e ele não fica no ar – quantas? O que foi resultando e o que, de facto, é melhor esquecer?; quantas temporadas se sucedem, com ele enquanto treinador de basebol, levando a equipa a sucessivas derrotas e, sempre com esperança da próxima temporada, tentando animar a equipa que, dia após dia, está menos entusiasmada; tendo uma paixoneta por uma personagem que nunca aparece sequer na banda desenhada, quantas vezes perde o foco da amizade e do jogo e nem chega, sequer, à fala com ela?  Talvez se Charlie Brown fizesse registo de dados, os tratasse e analisasse, perceberia melhor quando deveria continuar ou se seria melhor parar. Se o fizesse, não chutaria tantas vezes a bola, sem sucesso ou seria “malandramente enganado” por Lucy, ou talvez o seu cão Snoopy fosse menos irreverente.

Apenas uma última nota: quando os adultos falam, na mesma banda desenhada, é “blá blá blá”, ou seja, o que dizem é ininterpretável para as crianças – talvez seja hora de, nas organizações, a gestão de pessoas falar a mesma linguagem que os outros ramos da gestão.

Obrigada, Charlie Brown, por ainda nos dares lições.

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