O que é o Eurofi? O grupo secreto de lobby na UE que tem 6 milhões de euros para colocar políticos europeus em hotéis de luxo

A enorme escala financeira da Eurofi tornou-a agora um dos maiores grupos de lobbys na UE – isto apesar de ter apenas três funcionários em tempo integral e nenhuma conta disponível publicamente

Francisco Laranjeira
Setembro 3, 2024
11:50

Um ‘think tank’ obscuro que oferece às empresas acesso a políticos e reguladores da União Europeia arrecadou quase 6 milhões de euros em taxas do setor financeiro, destacou esta terça-feira o jornal ‘POLITICO’, o que alimenta preocupações sobre a falta de transparência e troca de dinheiro por influência.

A enorme escala financeira da Eurofi tornou-a agora um dos maiores grupos de lobbys na UE – isto apesar de ter apenas três funcionários em tempo integral e nenhuma conta disponível publicamente. A sua principal operação envolve organizar uma extravagância semestral a portas fechadas, antes das reuniões dos ministros das Finanças europeus, que atrai altos funcionários, banqueiros centrais e especialistas em finanças.

De acordo com diversos membros seniores do Parlamento Europeu, com papéis influentes na legislação financeira, revelaram que a Eurofi pagou as suas estadias em hotéis elegantes e algumas das suas viagens. O ‘think tank’ atingiu um orçamento de 5,7 milhões de euros em 2023 só em taxas dos seus membros que incluem alguns dos maiores bancos, bolsas de valores e gigantes da tecnologia – onde estão o BlackRock, Goldman Sachs e American Express -, de acordo com as divulgações de transparência de julho último, as primeiras informações publicamente disponíveis sobre as suas finanças nos últimos anos.

A situação levanta preocupações sobre a natureza do lobby na União Europeia: quem está a pagar e quanto – e que tipo de influência está o dinheiro a comprar? A influência do setor financeiro em Bruxelas tem sido visível nos últimos anos, referiu a publicação, com a introdução de regras mais leves para bancos e seguradoras do que os reguladores exigiam, e sucesso notável em moderar reformas que podem prejudicar os interesses do setor. “É um dos grupos mais opacos que posso imaginar”, referiu Kenneth Haar, investigador do Corporate Europe Observatory, um órgão de campanha sem fins lucrativos. “É realmente estranho ter um orçamento tão grande com apenas algumas pessoas.”

A Eurofi é diferente de outros grandes lobbys em Bruxelas, que enchem os seus escritórios para tentar influenciar a política e ganhar a atenção dos principais políticos: insistiu que não representa os interesses da indústria financeira e apenas fornece uma plataforma para discussão.

No entanto, o seu peso financeiro eleva-a a uma das maiores organizações de lobby em Bruxelas, logo atrás das gigantes tecnológicas como a Google e Apple, que investiram enormes recursos para influenciar a maquinaria de Bruxelas – tem uma associação de mais de 100 participantes financeiros e o seu orçamento aumentou em quase 50% desde o último valor disponível de 3,9 milhões de euros em 2020, apenas superada pela ‘Insurance Europe’ como o maior grupo de lobby para o setor financeiro.

Isso significa que tem mais recursos do que os principais lobbis bancários, o poderoso lobby da indústria farmacêutica (a Federação Europeia das Indústrias e Associações Farmacêuticas) e o grupo empresarial BusinessEurope. “Têm acesso muito fácil a servidores públicos e tomadores de decisão, e quando eles aumentam seu orçamento, eles terão ainda mais acesso”, destacou Haar.

Budapeste vai receber, nos dias 11, 12 e 13 de setembro, uma festa onde vão estar presentes ‘quem é quem’ no topo da regulamentação financeira: inclui o governador do Banco Central francês, François Villeroy de Galhau, a presidente do Banco Europeu de Investimento, Nadia Calviño, e o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis. São esperados centenas de representantes da indústria.

A Eurofi cobra aos seus membros da indústria taxas de 50 mil euros, de acordo com fontes financeiras: uma mesa num jantar de gala, uma sala de reuniões ou um lugar para um CEO num painel, tudo isto equivale a custos extras.

As conferências acontecem nos dias que antecedem uma reunião dos ministros das Finanças do país no comando, o que significa que as principais autoridades já estão na cidade. Acontecem inteiramente a portas fechadas e, apesar das críticas sobre os custos e a falta de transparência, as autoridades da UE continuam presentes em massa.

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