O profissional de saúde também tem de estar no centro do sistema!

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Acho que temos um dos melhores SNS do mundo e provavelmente um sistema de saúde no top 10 mundial. Na acessibilidade, qualidade, proporcionalidade e equidade. E só percebemos isso quando somos atendidos num hospital fora de Portugal, mesmo em países desenvolvidos como nos EUA, na Alemanha ou no Reino Unido.  E esta qualidade existe, apesar do desinvestimento que se verificou nos últimos anos no SNS, independentemente da cor partidária do governo.

A qualidade deste sistema (não apenas do SNS) está muito assente na qualidade, compromisso e dedicação dos recursos humanos (profissionais de saúde). Pelo que julgo bastante preocupante este desgaste dos profissionais de saúde com o SNS, que é um elemento fundamental do sistema. Desgaste que leva ás demissões das chefias, recusa em realizar horas extraordinárias, ou os leva a abandonar o SNS quer para fora do país, quer para as unidades privadas. As consequências desta escassez de recursos humanos no SNS gera danos irreversíveis como a sobrecarga nos que ficam e atrasos graves nos cuidados de saúde a prestar aos cidadãos. Por isso não entendo as ideologias que não concebem um sistema de saúde que envolva público, social e privado de forma integrada. Até porque os modelos de PPP demonstraram (na maior parte dos casos) que são mais eficientes, mais baratos e com maior qualidade na prestação do serviços de saúde que o tradicional modelo público.  

Este não é o tema, mas sim tentar perceber porque é que os profissionais de saúde saem? Ainda este ano, um canal de tv referia que só em 2021, saíram 400 médicos do SNS. A causa mais fácil de apresentar é  porque ganham mal, o que é verdade pois auferem metade do que no privado e menos de um quarto do que ganham fora do país. Mas conhecendo os profissionais de saúde como conheço, sei que não são “mercenários”. O dinheiro é importante mas não é certamente a única causa. Aliás vemos que as reivindicações destes profissionais, quase nunca incluem apenas questões financeiras. Existem outras, como um modelo de carreira e salarial que não é meritocrático. Um Serviço Nacional de Saúde hospitalicêntrico e focado no serviço de urgência, com consequente aumento de horários alargados e extraordinários mal pagos. Não existe work life balance. Não existe investimento nas novas tecnologias o que impossibilita experimentar e desenvolver novas técnicas, bem como realizar trabalhos de investigação. Não existe experiência com novas terapêuticas (que por norma chegam ao país com 2 anos de atraso). Não existe “on board” e formação contínua, porque não há investimento ou porque os assistentes graduados se reformaram ou saíram para o privado. Não existe reconhecimento e autonomia, valores que que motivavam e desenvolviam o espírito de compromisso e de missão individual e corporativo. Não existe formação contínua de qualidade (ou até nenhuma) desenvolvida pelo estado. Não existe digitalização efectiva dos processos, passando muito do seu tempo em processos burocráticos que não acrescentam valor… Tudo isto desmotiva a pessoa e o profissional, até que um dia decidem abandonar o serviço, pois perdem a esperança.

Entendo que para um governante, mesmo conhecendo as causas, tem dificuldade (e nalguns casos incapacidade) em solucionar todos os problemas. Não considera o sistema como um todo e portanto apenas pode pensar no SNS. O nosso sistema de função pública não é meritocrático, limita condições, não define modelos autonómicos das organizações, não avalia, nivela todos (pessoas e organizações) por critérios totalmente desadequados e esclerosados. E o nosso modelo de financiamento e investimento não permite folgas orçamentais para mudar todo o SNS (por isso entendo que sugerir a exclusividade dos médicos no SNS é um “sonho improvável”, que não é novo e que não vai resultar por inúmeros motivos que não temos tempo de clarificar aqui). Por vezes, o único factor que fica para motivar estes profissionais de saúde que trabalham para o Estado, é o sentido de missão em contribuir para o bem público. E nós vimos isso, na prática, na gestão da pandemia no ano de 2020 e início de 2021.

Nós, cidadãos comuns, infelizmente só nós lembramos destes profissionais por causa do seu empenho na gestão da pandemia, ou quando não temos médico de família e precisamos de uma consulta, ou quando esperamos dez horas para ser atendidos no serviço de urgência… a solução talvez passe por conceber um sistema de saúde integrado (e não apenas o SNS); bem como colocar o cidadão, mas também o profissional de saúde, no centro do mesmo e não “atirá-lo para fora dele”!

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