O poder do contrapoder

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Não sou político, nunca serei, como alguém diria, “não tenho estudos para tal”! Mas tenho opinião e gosto de participar na vida da comunidade e acima de tudo, tentar entender os seus comportamentos, motivações, decisões, escolhas e paradoxos. Agradecia que não vissem este artigo de opinião com o objectivo de crítica política a nenhum partido, mas apenas de análise e avaliação de um cidadão irrelevante e trivial. Inclusive criando a excepção de falar de política neste espaço. Mas julgo que é importante conhecermos a realidade em prol das pessoas, das empresas, dos gestores…

As maiorias políticas devem ser sempre confrontadas com oposições fortes. Julgo que o eleitorado, os votantes (não os abstencionistas que têm o direito de manifestar a sua opinião política  dessa forma; mas perdem legitimidade na possibilidade de críticar pois decidiram não participar através do voto, nas decisões do país) não são de todo ignorantes e esta eleição autárquica confirma que o poder desgasta e que as pessoas gostam do contra-poder. Este equilíbrio premente quando se desequilibra, como estava a acontecer, volta a reequilibrar-se naturalmente. E ou gera abstenção (como nestas e noutras eleições (culpa dos políticos) ou mudança de direção política e alternância. 

O voto em Lisboa ou Coimbra, foi pela campanha dos concorrentes, a gestão camarária dos presidentes em exercício, mas (como referido na Tv) acima de tudo contra o abuso de poder (ou risco potencial) de qualquer partido que está a governar há algum tempo e pode começar a ter “tiques de regime autocrata e corporativista”. E o povo penaliza estes “tiques”, pois traz à memória más recordações antigas, do estado novo, mas também mais recentes, do cavaquismo ou do socratismo. Quando tudo sugeria que a gestão do covid beneficiaria os incumbentes, pois teve um sucesso evidente no programa de vacinação, portanto deveria reafirmar o partido do poder. Não aconteceu, o que demonstra que o povo afinal não é assim tão seguidor como os políticos nos querem fazer crer que somos. As promessas ligadas ao PRR por parte do partido do governo, foi provavelmente mal aceite por quem considera que o PRR é um programa de recuperação económica do país e não de um partido (como a maternidade em Coimbra, ou as promessas em Nelas, por exemplo). Entendidas (segundo julgo) como um tique de regime que está a aparecer repetidamente, pois trata-se de um abuso de posição dominante. Por outro lado, a falta de comunicação com os munícipes por parte de alguns ex-presidentes de Câmara derrotados, sempre cheios de si próprios e a quererem deixar obra que só os próprios acreditam (o ridículo das ciclovias em excesso na cidade de Lisboa), “já não cola”! Os autarcas que venceram novamente, começaram a trabalhar no dia a seguir ás eleições anteriores, não como em algumas cidades onde as obras surgiram apenas nos últimos 3 meses antes das eleições. Os analistas políticos saberão melhor que eu, pois sabem tudo sobre quase tudo. 

Apesar de ser um homem de direita, tenho um especial destaque para um partido coerente que julgo ter, infelizmente, saído derrotado destas eleições. E que faz falta ao regime republicano e democrático apesar das suas crenças totalitárias: o PCP. Deveria ser um partido sempre presente pois é coerente e defende os seus ideais, não é um partido caviar e oportunista, mas que defende os mais desprotegidos e (embora não acredite no “elevador social”), defende genuinamente a igualdade social (da forma errada, pois quer acabar com os ricos em lugar de acabar com os pobres). Mas deveria ter representação pois pode ser um dos contra-poderes que o estado necessita e que defende os direitos da massa trabalhadora indistinta (embora muitas vezes da forma errada, em minha opinião).

No final da noite, quem ouviu os líderes políticos que ficaram (pois outros acabaram a noite muito cedo), como habitualmente, todos ganharam, excepto o PCP  que habitualmente ganhava sempre (mesmo quando perdia). Pensando os líderes políticos, que o mérito é exclusivamente próprio. Parcialmente o mérito é dos candidatos, em Lisboa, por exemplo, os eleitores escolheram um projecto. Mas a necessidade do contra-poder e o autismo social de alguns candidatos, também explica parcialmente este resultado. Nós não votamos apenas a favor, também Votamos contra! O que não significa que na maioria dos casos o vencedor não tenha mérito, mas sabemos também que votamos contra o que não queremos. E aí não votamos a favor do vencedor, votamos contra o perdedor. Acho que alguns políticos ainda não entenderam isso. Por vezes, o candidato vencedor não ganhou, o outro é que perdeu. O vencedor é que apenas estava à hora certa,  no local certo e teve sorte (embora a sorte dá muito trabalho como sei, pois é 1% de inspiração e 99% de transpiração). Não significa que seja sempre assim mas julgo que muitas vezes é! Mas como sempre na política, “tudo como dantes, no quartel de Abrantes”! 

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