O pior cenário climático saiu das projeções. Mas isso não é a boa notícia que parece

Durante anos, uma das imagens mais assustadoras usadas para falar do futuro climático era a de um mundo que continuava a apostar sem travões nos combustíveis fósseis, sem cortes relevantes nas emissões e com um aquecimento global a rondar os 4,5 °C até 2100

Francisco Laranjeira

Durante anos, uma das imagens mais assustadoras usadas para falar do futuro climático era a de um mundo que continuava a apostar sem travões nos combustíveis fósseis, sem cortes relevantes nas emissões e com um aquecimento global a rondar os 4,5 °C até 2100. Esse cenário extremo deixou agora de fazer parte das novas projeções climáticas internacionais. Mas a leitura não é tão simples como alguns gostariam.

Num texto publicado no ‘The Conversation’, Andrew King, especialista em ciência climática na Universidade de Melbourne, explica que a retirada do cenário de emissões mais elevadas, conhecido como RCP8.5 e, mais tarde, SSP5-8.5, não significa que os modelos climáticos tenham falhado ou que o aquecimento global tenha sido exagerado. Significa antes que o mundo, apesar de tudo, já evitou o pior futuro que chegou a ser considerado plausível.

Esse cenário previa uma expansão contínua do uso de combustíveis fósseis, sem esforço sério para cortar emissões. Até ao final do século, os níveis de dióxido de carbono quase triplicariam, chegando a 1.135 partes por milhão, e a temperatura média global subiria cerca de 4,5 °C face ao período pré-industrial.

A retirada desse caminho das novas projeções provocou reações políticas, incluindo de Donald Trump, que a apresentou como sinal de fragilidade da ciência climática. Para Andrew King, essa interpretação é errada. O cenário mais extremo saiu porque a realidade mudou: a expansão da energia solar, da energia eólica, dos carros elétricos e das baterias travou parte do crescimento das emissões.

O futuro pior ficou menos provável. O melhor também escapou

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A boa notícia é que a humanidade já não parece caminhar para o pior cenário climático que durante anos serviu de referência extrema. A má notícia é que também já perdeu a hipótese mais otimista das projeções anteriores.

As novas simulações deixam de fora o cenário de emissões mais baixas da ronda anterior, que apontava para uma ação climática muito forte e cortes rápidos nas emissões, permitindo que o aquecimento global atingisse um pico próximo de 1,5 °C. Como as emissões globais ainda não começaram a descer, esse caminho deixou de ser considerado plausível.

O cenário mais otimista agora disponível aponta para um pico de aquecimento em torno de 1,9 °C. Ou seja, o mundo já deverá ultrapassar os 1,5 °C, embora a esperança continue a ser que esse excesso seja temporário e que, mais tarde, parte do dióxido de carbono seja removido da atmosfera.

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É aqui que a história se torna menos confortável. Retirar o pior cenário mostra progresso, mas retirar o melhor mostra atraso. O mundo já fez o suficiente para evitar uma catástrofe ainda maior, mas não o suficiente para garantir uma transição climática segura.

O que são afinal estes cenários?

As projeções climáticas não são previsões fechadas, como se o futuro já estivesse escrito. São caminhos possíveis, construídos por cientistas para perceber como o clima pode evoluir consoante as decisões políticas, tecnológicas e económicas tomadas nas próximas décadas.

Os investigadores desenham diferentes trajetórias para as emissões de gases com efeito de estufa, tendo em conta o que já aconteceu e o que pode acontecer com a energia, os transportes, a indústria, a política climática e a tecnologia. Depois, vários grupos científicos em todo o mundo simulam esses cenários através de modelos climáticos, produzindo dados globais, regionais e locais.

Segundo o ‘The Conversation’, estes cenários não são apresentados como uma lista ordenada do mais provável para o menos provável. São futuros plausíveis, mais ou menos otimistas, que ajudam governos, cidades, empresas e investigadores a preparar-se para impactos como subida do nível do mar, ondas de calor, secas, cheias ou alterações nos padrões de chuva.

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A diferença entre os cenários continua a ser enorme. Até 2100, a distância entre o futuro mais otimista e o mais pessimista aproxima-se dos 2 °C. Essa margem mostra que uma parte importante do futuro climático ainda depende das decisões tomadas agora.

O cenário extremo que alimentou polémicas

O antigo RCP8.5 tornou-se conhecido por representar um mundo em que a utilização de combustíveis fósseis crescia fortemente durante o século XXI. O número 8.5 refere-se ao chamado forçamento radiativo, ou seja, a quantidade adicional de calor retida por metro quadrado até 2100.

Durante anos, este cenário foi usado como referência para estudar impactos climáticos graves. Mas a sua plausibilidade foi sendo debatida entre cientistas, precisamente porque implicava uma expansão muito acentuada do carvão, do petróleo e do gás, num momento em que as renováveis e outras tecnologias limpas começaram a ganhar escala.

Nas novas projeções, nenhum cenário é tão pessimista como o RCP8.5 ou o SSP5-8.5. O pior caminho agora considerado aponta para um aquecimento em torno dos 3,5 °C até 2100. Continua a ser um resultado muito grave, com consequências profundas para ecossistemas, cidades, agricultura, saúde pública e zonas costeiras. Mas já não é o extremo de 4,5 °C.

É por isso que Andrew King insiste que a retirada do cenário não deve ser usada para desvalorizar a ciência climática. Pelo contrário: mostra que as projeções são atualizadas quando a realidade muda.

O mundo está no meio: melhor do que o pior, longe do suficiente

A trajetória atual das emissões coloca o planeta algures entre os extremos. O mundo está abaixo do antigo caminho de emissões elevadas, mas continua muito acima do cenário mais otimista.

Com as políticas atualmente em vigor e as ações já assumidas pelos países, o aquecimento global deverá rondar os 2,6 °C até 2100. Esse valor fica longe do pior cenário retirado das projeções, mas continua muito acima das metas climáticas internacionais e seria suficiente para agravar muitos dos impactos já sentidos hoje.

A temperatura média global está já cerca de 1,4 °C acima do período pré-industrial. Muitos efeitos das alterações climáticas tornaram-se evidentes neste patamar: ondas de calor mais intensas, incêndios mais extremos, alterações nos regimes de chuva e maior pressão sobre comunidades vulneráveis.

A questão, por isso, não é se a ação climática fez diferença. Fez. A questão é se fez diferença suficiente. A resposta, pelos novos cenários, é não.

Porque é que os cenários mudam?

As projeções climáticas são atualizadas porque o mundo também muda. A energia solar avançou muito mais depressa do que muitos antecipavam. Os carros elétricos e as baterias ganharam escala. Ao mesmo tempo, novas fontes fósseis, como as associadas ao fracking, abriram reservas adicionais de petróleo e gás.

A política também muda. Governos podem acelerar ou travar metas climáticas, subsidiar combustíveis fósseis, expandir renováveis, regular transportes ou adiar decisões. Cada mudança altera a plausibilidade de determinados caminhos.

Além disso, os modelos climáticos estão sempre a melhorar. Quanto mais detalhados forem, melhor conseguem projetar impactos específicos, como subida do nível do mar, fenómenos extremos ou alterações regionais na temperatura e na precipitação.

É por isso que os cientistas continuam a refazer cenários. Não porque “não sabem” o que estão a fazer, mas porque a realidade que estão a modelar está em permanente transformação.

A notícia boa que não chega

A retirada do pior cenário climático é uma notícia positiva, mas não deve servir de desculpa para abrandar. Mostra que a ação climática, mesmo imperfeita e insuficiente, já teve efeitos concretos. O mundo não está hoje no caminho mais sombrio que chegou a ser considerado.

Mas também mostra que o tempo perdido tem consequências. O cenário mais favorável desapareceu porque as emissões não caíram depressa o suficiente. A janela para limitar o aquecimento a 1,5 °C sem ultrapassagem está praticamente fechada.

A conclusão de Andrew King é clara: sim, há progresso. Mas o trabalho está longe de estar feito. Os próximos cinco anos podem empurrar o planeta para futuros climáticos muito diferentes, melhores ou piores, consoante a velocidade com que o mundo reduza emissões.

O pior futuro pode ter sido evitado. Mas o futuro que resta ainda depende do que for feito agora.

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