O Peter de Lisboa

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

 

Este artigo não é político, não critica partidos nem defende candidatos à CML, mas é apenas uma opinião estratégica e de gestão sobre a vida numa cidade como a de Lisboa, onde vivo e pela qual tenho “uma paixão imensa”. Porque Viver em Lisboa já foi um paraíso mas cada vez está mais insuportável. Com menos trânsito demoramos mais tempo a circular, a procurar estacionamento, a pagar o estacionamento caríssimo (agora até há estacionamento de cor castanha, já não bastava o preço da cor vermelha), sem lugares de residentes suficientes (e por cortesia que fossem a menos de 1 km das nossas casas, quando há), a utilizar os transportes públicos, a “fugir” da EMEL que apenas existe para rebocar carros, a ser atropelado por loucos que circulam em trotinetes e bicicletas -e as “atiram” como estacionadas em qualquer lugar-, a ver ciclovias vazias e abandonadas, obras semiacabadas que nunca mais acabam (deve ser para serem inauguradas mesmo antes das eleições), não se consegue agendar nada para ser tratado nalgum serviço camarário, os nossos dados pessoais são cedidos por “erro burocrático” de forma inconsciente a outros países em 52 processos (em violação clara da segurança dos mesmos e da GDPR), as taxas / impostos e taxinhas são imensas e ninguém percebe para quê, o sistema de recolha de lixo atira com os caixotes para o meio da estrada, existe uma investigação da PJ a decorrer por suspeitas de corrupção no departamento de urbanismo Lisboeta, a situação de calamidade de saúde púbica no concelho de Lisboa por causa do Covid19… E não há responsáveis! Ou há, mas são sempre os desgraçados que tiveram azar de estar á hora errada no lugar certo para levar com as culpas. E os culpados políticos como o Sr Presidente da Câmara Fernando Medina, assobia para o lado, preocupado com a promoção televisiva como comentador e esquecendo-se que “herdou” (sem conseguir ainda por cima a maioria absoluta), sem as competências necessárias, a maior Câmara Municipal do País, que por acaso até é a capital do mesmo. Aqui vemos o princípio de Peter em execução plena. E com tudo isto, não estou a defender nenhum dos outros candidatos e julgo que António Costa foi um bom presidente da CML (Fernando Medina conseguiu fechar 2020 com resultados líquidos negativos de 46 milhões de euros). O Dr António Costa só se enganou no herdeiro que deixou, e tanto!

A CML tem ótimos recursos humanos e um péssimo Presidente (assim como péssimos presidentes de Juntas de freguesia). Não tem competências para liderar uma equipa (um dos maiores empregadores do Concelho pago pelos nossos impostos e taxas), não sabe planear a cidade ( ao nível dos corredores de circulação e de estacionamento para residentes e não residentes: definição do tipo de áreas da cidade com zonas verdes, zonas de serviço, zonas residenciais; apoio ao desenvolvimento de eventos culturais na cidade mas também nas suas ruas; desenvolvimento de zonas típicas protegidas e de interesse municipal com a redução e mesmo eliminação do estigma de algumas áreas da cidade; estabelecimento de um projecto efectivo de atração e fixação de residentes para o centro da cidade (nacionais e estrangeiros, jovens ou idosos), qualificação dos espaços públicos existentes – não precisa de inventar novos – para melhoria da qualidade de vida e prática de uma vida saudável, garantir a qualidade ambiental – não construindo ciclovias para turistas que não há –  mas reduzindo a entrada de carros na cidade com melhor oferta integrada com outros municípios de transportes públicos, projecto efectivo de atração de Investimento directo nacional e estrangeiro no concelho com o objectivo de aumentar a empregabilidade na cidade (não a pública, paga pelos contribuintes, mas a privada que promove o desenvolvimento económico), criação de ferramentas de transparência na gestão e administração da coisa pública, ou até em atos simbólicos e simples como “abraçar” as organizações que apoiam os sem abrigo que pululam pela cidade, entre tantas outras atividades a realizar. Não consegue falar nem comunicar com os cidadãos, as comunidades, organizações e a sociedade. Julgo que com o poder máximo, se destapou o “autista” prepotente que estava “engalfinhado” por não ser o “Querido Líder”.

Mas para gerir uma cidade como Lisboa, teria que ter objectivos claros, um plano estratégico para a cidade, tempo e disponibilidade para a gerir, ser accountable com as decisões (boas e más), ser ESG, integrar-se e falar com as pessoas e “organizações vivas da cidade”, gerir bem os recursos humanos e financeiros de Lisboa, não ser provinciano, não pensar que o carreirismo político é suficiente para garantir os cargos (e a função pública deve ser uma missão)… Sempre teve um ministro ou presidente da Câmara que o orientasse e provavelmente não o deixava fazer tantos disparates. Atingiu o princípio de Peter portanto! Sendo economista devia ser racional, mas (na minha simplista opinião) percebe pouco de sociologia económica da qual tirou o mestrado. Se fosse CEO de uma organização, já há muito que tinha sido despedido. Mas infelizmente não é, ganhou as eleições (ou pelo menos o partido da qual faz parte) e tem o direito (que respeito) de ser o “Peter” de Lisboa. Portanto temos que “aturar” a sua calamitosa obra e herança, pelo menos (espero eu) só até Outubro!


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