Caráter, Sinceridade, Esforço, Etiqueta e Autocontrolo. Estas são as cinco máximas sagradas do karaté – consideradas essenciais pelo Mestre Gichin Funakoshi –, desenvolvidas e aperfeiçoadas para todos aqueles que entram num dojo (local de treino) para praticar esta arte marcial. Elas estabelecem os princípios morais e éticos que devem guiar todos os praticantes no treino, com o objetivo de criar um ambiente de respeito, disciplina e crescimento pessoal. Daniel Gaio Simões tem 40 anos, é casado, pai de três filhos e diretor-geral da Bayer Portugal, e é o primeiro português a liderar a gigante farmacêutica alemã em território nacional em 13 anos. Além disso, pratica karaté, entre uma corrida na Marginal ou a Maratona de Berlim ou Valência.
Natural da zona centro do país, Daniel cresceu num ambiente de Letras, onde adquiriu o gosto pelos livros, mas também «a necessidade de concretizar. A teoria sem prática não funciona; e a prática sem boa teoria também não. Mas tenho essa coisa do “fazedor”, do empreendedorismo, do transformar, ter impacto.» No entanto, a sua paixão estava na química. «Lembro-me de gostar muito da disciplina», recorda e acrescenta: «interessavam-me os medicamentos e também o mundo empresarial. Considerava que podia unir ciência e negócio. Foi uma das razões que me levou a estudar Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra.» A Cidade dos Estudantes era também um sonho de infância pelo «ambiente e espírito académico» e foi aí que terminou o mestrado e um MBA com o objetivo de trabalhar onde sempre sonhou: na indústria farmacêutica. No entanto, e como acontece tantas vezes, começou a trabalhar, mas não exatamente como tinha pensado, os planos nem sempre acontecem como imaginamos», sublinha. O Infarmed abriu um conjunto de vagas e candidatou-se. Foi aceite pela Autoridade do Medicamento que incluía uma parte científica e de regulamentação, mas faltava-lhe a parte do negócio. «Acabou por ser uma experiência superpositiva, aprendi imenso e vi como diferentes empresas trabalham, e as diversas abordagens que têm.» Depois, e com o desejo de «vestir a camisola», de pertencer a uma empresa, mudou-se para a GlaxoSmithKline, onde desempenhou várias funções.
«Máximo orgulho, Máxima responsabilidade»
É em 2011 que Daniel ingressa na Bayer Portugal, de uma forma quase ‘naïve’, revela. «Na altura, mudei-me por uma razão muito simples – queria comprar uma casa. Estava com um contrato temporário e, na Bayer, ofereceram-me um contrato sem termo. Hoje fala-se muito de estabilidade, mas, na altura, já era uma realidade para mim. Já lá vão 14 anos e tenho tido a sorte – e gosto de reforçar isto – de ter tido oportunidade de abraçar diferentes projetos. Isso pesa muito na retenção das pessoas. Fui sempre desafiado.» De entre as várias áreas por onde passou, destaca «a regulamentar (vista como muito técnica e pesada), o acesso ao mercado (preços e comparticipações), a científica e o departamento médico. Depois vieram o marketing e as vendas… Foi inclusivamente desafiado por uma diretora-geral para assumir uma área completamente diferente: análise de dados e novas tecnologias! «E, lembro-me de me dizerem: “Isto não tem muito a ver com o teu perfil, talvez sejas mais de marketing.” Hoje, percebo o quanto aprendi e o quão importantes foram essas experiências para mim.» No início de 2025, assumiu a liderança da Bayer Portugal, com «máximo orgulho e máxima responsabilidade». Ao longo do percurso, Daniel diz que fez «muitas coisas, com alguma sorte também, mas tive de estar preparado para assumir as funções.» De forma muito direta, afirma que «os líderes têm de saber; eu gosto de saber que já fiz muitas das coisas que peço aos outros, podendo dizer que já estive nesse papel.» Por outro lado, assume que «a responsabilidade é enorme – não apenas por ser um diretor-geral português, mas pelo impacto que temos na vida das pessoas. As decisões que tomamos – nunca sozinhos – têm impacto direto nas pessoas que trabalham connosco, nas famílias delas e na sociedade. Sinto-me muito bem e espero continuar a evoluir.

«Na prática, a grande mensagem é não desistir», diz Daniel, utilizando o exemplo do karaté e do Japão quando fala sobre talento, retenção e progressão. No Japão, um aluno no karaté começa a prática como cinto branco. Passa vários anos a treinar, dez ou mesmo 15, e só depois pode atingir o nível de cinto castanho. E, mais tarde, o almejado cinto negro. É um processo de preparação longo. Mas, na Europa, não existe essa cultura de paciência e de espera. E, assim, criaram-se as cores – amarelo, laranja, verde – para “premiar” pequenos objetivos. «E isso serve para reter os miúdos. Agora quero o amarelo, depois o laranja… pequenas metas. Na prática, não desistir, resolver problemas, descomplicar. Respeitar o outro. No karaté não havia brigas – lutávamos, sim, mas com respeito. Quando jogava futebol com amigos chateava-me mais do que no karaté – embora às vezes chegasse a casa com uma ou outra nódoa negra.»

LIDERANÇA: «EU GOSTO DE SABER QUE JÁ FIZ MUITAS DAS COISAS QUE PEÇO AOS OUTROS»
Na conversa recorda que o desporto surge como uma condição “sine qua non” em casa. «Tínhamos de fazer algum desporto – fosse qual fosse. Algo que na minha família é passado de pais para filhos e que eu, inclusive, já passei para os meus. Comecei no karaté porque muitos dos meus amigos praticavam a modalidade. Para além disso, era um desporto que valorizava a persistência.» E assim foi. Dos cinco aos 20 anos a prática foi assídua. «Depois parei um tempo e voltei há três anos. Mas já era difícil – horários, vida pessoal… e o estilo também mudou. Eu pertenço ao karaté tradicional e, atualmente, está muito voltado para competição, medalhas. Não me ajustava.» E com isso veio outro “vício”, a corrida.
De Carcavelos a Berlim, com passagem por Valência
Surge quando veio viver para Lisboa, em 2008, «na altura não havia o fenómeno que hoje existe, em que todos os fins de semana há provas por todo o país».

Recorda a primeira corrida de 10 km que fez, com partida em Carcavelos e percurso pela Avenida Marginal. «Gostei da experiência e de todo o processo de participar e de competir comigo. Às vezes, ainda tenho de explicar aos meus filhos que a medalha que trago para casa é de participante e não porque ganhei a prova. Mas sou competitivo e gosto de ver as classificações e os tempos que faço». O percurso de Daniel nas corridas é típico de quem começa nestas andanças: dos iniciais 10 km passa para a meia-maratona (21 quilómetros) e daí para a prova-rainha em estrada: os 42.195 metros da Maratona. «Fui influenciado por um livro, «Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo», do escritor/corredor Haruki Murakami [Casa das Letras, 2009]. Diz que, por causa dessa obra, deixou de ir a provas para «passar a ser corredor» (riso). Mas, admite, a Maratona é diferente, «a preparação para essa distância é o que mais gosto, gosto dessa rotina». E o que pensa enquanto corre? Trabalho, família, na próxima prova? Diz que é uma pergunta que lhe fazem com frequência, mas revela que tanto pensa no mais trivial como num problema que tem de resolver no trabalho, «não consigo definir um padrão, é sobretudo um momento para estar sozinho e que me faz muito bem à mente». Uma das coisas que mais aprecia na corrida é poder alinhar lado a lado com a elite, algo raro noutros desportos. Recorda a estreia na Maratona de Berlim, quando partiu a poucos metros do campeão queniano Eliud Kipchoge, vencedor do ouro olímpico em 2016 e 2020.

Depois de expostos os outros lados do espelho e antes da conversa cruzar a meta, Daniel Gaio Simões revela os próximos desafios da Bayer no mercado nacional. «Estamos focados em várias áreas, desde os medicamentos de prescrição médica aos medicamentos de grande consumo, onde vamos lançar um novo produto, em janeiro, para ajudar a combater uma doença rara, a amiloidose cardíaca». A finalizar, destaca o lado pioneiro da Bayer na desburocratização e na referência que têm sido para outras empresas. O modelo, denominado Dynamic Share Ownership, promove ciclos curtos de trabalho com equipas multidisciplinares que ajustam continuamente o produto antes de avançar para etapas seguintes. As orientações vêm da casa-mãe, mas Portugal tem-se destacado pela agilidade e abertura à mudança, fruto da menor dimensão e da predisposição dos portugueses para inovar.
Nota: Agradecemos ao Balance Club do Lumiar pela disponibilização do espaço onde decorreu a sessão fotográfica.
Nota: Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico.




