O novo contrato social blocal

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A geração millennial (entre 30 a 40 anos) está desiludida com o mundo global. Retira proveitos do mesmo pois, por exemplo, não sabe viver com fronteiras ou sem Wi-Fi. Mas não aceita a falta de liderança (e bem), nomeadamente europeia e americana, em relação a temas como eco-sustentabilidade, eco-responsabilidade, cibersegurança, media e meios digitais não supervisionados promovendo “fake news”, desemprego jovem, baixos salários, alta concentração de riqueza, oligarquias, violação dos direitos humanos, falta de proteção de dados… Não entendem como se pode comprar uma T-shirt feita na Ásia paga a “quase escravos” com irrisórios salários, ou mesmo trabalho infantil, em organizações que ainda por cima, poluem o planeta. É o direito à indignação tantas vezes manifestado nas redes sociais. Optam por não comprar a organizações e empresas “cinzentas” (ou seja sem práticas ESG claras) como uma forma de protesto. Mas se intervém bastante no mundo “metaverso” ou ainda digital, desligam-se dos seus deveres (e direitos) existentes, como o de votar, um dos valores mais ricos da democracia, que constitui o “tribunal público” dos cidadãos e do povo.
Ou seja, o contrato social em vigor está a desmoronar-se, não porque seja mau, pelo contrário. Mas a noção de direitos e deveres alterou-se de acordo com os blocos no qual as pessoas estão. O conceito de liberdade não é o mesmo em Macau e Portugal; ou o conceito de riqueza não é o mesmo em África do que no Canadá; o respeito pela vida humana devia ser um valor incontestado mas existem países com possibilidade de aplicar penas de morte; o trabalho infantil é inaceitável para a maioria dos países, mas em alguns é uma das principais fontes de financiamento familiar; o conceito de família não é o mesmo na Península Arábica ou na Ásia… São apenas exemplos (e certamente contestáveis), mas o que é facto é que a declaração universal dos direitos do homem já não é tão universal assim. Apenas é para uma franja da população mundial, nomeadamente a Europeia. Portanto tornou-se a declaração blocal dos direitos do homem. Sendo assim, um novo contrato social tem de ser reescrito, negociado e acordado entre a sociedade e os cidadãos. Sem esquecer que este “trade-off” de direitos e deveres já não pode ser assente na utopia em que vivemos até agora, mas sim assente em “valores de plasticina” de acordo com os blocos, pois só assim funciona e é aceite pela maioria. Só assim poderá ser “assinado” nos 4 cantos do planeta mas infelizmente acabar com a imutabilidade dos mesmos valores.
A cultura blocal condiciona o “modus operandi” social. A questão é que este deveria ser um processo demorado, de encontro de compatibilidades entre blocos, mas está a ser precipitado pelas crises e eventos recentes. O risco é o isolamento cada vez maior entre blocos, pois, como alguns comportamentos podem ser
 inaceitáveis num bloco, são idolatrados noutros: a Rússia invadir a Ucrânia sem nenhum direito internacional legitimador; a China realizar exercícios militares de fogo real junto a Taiwan como retaliação da visita de Pelosi; o Brasil desflorestar o pulmão do mundo (Amazónia); o regime Afegão não permitir que as mulheres tenham educação; a livre compra e posse de armas de calibre militar nos EUA; o desenvolvimento de armas nucleares no irão ou na Coreia do Norte; o Japão sugerir aos jovens que bebam mais álcool para aumentar a receita fiscal; a Alemanha ficar dependente de energias fósseis e poluentes vindas da Rússia; a França ter um crescimento gigantesco da extrema direita política; a Índia ainda ter um regime de castas sociais; a China ter um regime de partido único… tudo valores diferentes decorrentes de culturas diferentes. Algo que com a globalização se tentou atenuar, ao olhar para os pontos comuns e não para os extremos. Mas olhar e valorizar as diferenças é o que está a acontecer agora, de forma blocal!


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