O que antes era apenas um símbolo de estatuto na dianteira dos automóveis transformou-se num alvo altamente lucrativo para o crime organizado. Segundo o ‘El País’, cidades americanas, com Nova Iorque à cabeça, estão a enfrentar uma nova vaga de furtos: não são apenas os emblemas das marcas que desaparecem, mas sobretudo os sensores tecnológicos escondidos por trás deles.
O problema já deixou de ser uma simples “brincadeira” ou um ato de vandalismo. Hoje, trata-se de uma operação rápida, silenciosa e com elevado retorno financeiro.
O que está realmente a ser roubado?
De acordo com o ‘El País’, os proprietários de modelos como os da Mazda, Honda e Hyundai têm encontrado um buraco na grelha frontal do carro. Mas o alvo principal não é o logótipo em si.
Escondida atrás do emblema está frequentemente a unidade de controlo eletrónico associada aos sistemas avançados de assistência à condução (ADAS), como a travagem automática de emergência ou o controlo de velocidade adaptativo. Estes sistemas tornaram-se obrigatórios nos automóveis novos matriculados na União Europeia desde 6 de julho de 2024.
Para evitar que a dianteira dos veículos se encha de sensores visíveis, muitos fabricantes optaram por escondê-los atrás do logótipo da marca. O resultado é um design mais limpo — mas também uma vulnerabilidade inesperada.
Um “crime perfeito” da era digital
Os ladrões descobriram que, com uma simples chave de fendas e em pouco mais de um minuto, conseguem remover um componente que atinge valores elevados no mercado de peças de substituição.
Ao contrário do furto de catalisadores — que exige levantar o carro e usar ferramentas ruidosas — a remoção de um radar frontal é rápida, discreta e praticamente silenciosa. Trata-se de um crime de baixo risco e alto retorno.
Quanto custa ao proprietário?
O impacto financeiro é significativo. Dados citados no artigo, incluindo estimativas da AAA (American Automobile Association), indicam que a substituição de um sensor de radar frontal pode custar entre 500 e 1.500 euros, dependendo da marca e do modelo.
Contudo, o valor não se fica pela peça. Após a instalação, é necessária uma calibração técnica especializada para garantir que sistemas como a travagem automática de emergência funcionam corretamente. Essa operação pode acrescentar entre 200 e 500 euros ao custo final.
No total, um furto que demora menos de um minuto pode representar uma despesa próxima dos 2.000 euros para o proprietário — ou para a seguradora.
Especialistas citados pelo ‘El País’ sublinham que até danos aparentemente menores, como uma pequena colisão num estacionamento, podem hoje implicar custos elevados devido à necessidade de recalibrar sistemas eletrónicos complexos.
Pode acontecer em Portugal?
Embora o fenómeno tenha sido amplamente reportado nos Estados Unidos, o risco poderá atravessar o Atlântico. Com os sistemas ADAS a tornarem-se obrigatórios em todos os carros novos na União Europeia desde 2024, a frota automóvel europeia — e por extensão a portuguesa — está cada vez mais equipada com sensores semelhantes.
À medida que aumenta o número de veículos com estes dispositivos, cresce também o potencial interesse criminoso.
A solução não é simples. Enquanto os fabricantes não reforçarem os sistemas de fixação ou alterarem a localização dos sensores — alguns já começam a posicioná-los atrás do para-brisas — a recomendação passa por privilegiar estacionamento em locais vigiados.
Por agora, conclui o ‘El País’, os logótipos dos carros deixaram de ser meros símbolos decorativos: tornaram-se alvos tecnológicos de alto valor.










