O mundo constrói uma cidade do tamanho de Nova Iorque todos os meses. E isso é preocupante para o clima

O mundo precisa de casas, escolas, hospitais e locais para trabalhar. Tantos que, para responder à procura, está a construir todos os meses o equivalente a uma cidade inteira do tamanho de Nova Iorque

Francisco Laranjeira

O mundo precisa de casas, escolas, hospitais e locais para trabalhar. Tantos que, para responder à procura, está a construir todos os meses o equivalente a uma cidade inteira do tamanho de Nova Iorque.

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O número ajuda a perceber a dimensão de um problema analisado por Philip Oldfield, professor de Arquitetura e diretor da School of Built Environment da Universidade de New South Wales (UNSW), e William Craft, investigador sénior da mesma instituição, num artigo publicado no ‘The Conversation’. Os dois investigadores são também autores de um novo estudo científico sobre as emissões provocadas pela construção de edifícios.

O dilema é relativamente simples: o planeta precisa urgentemente de construir mais, mas cada novo metro quadrado tem um custo climático muito antes de alguém acender a primeira luz. Só em habitação, são necessárias cerca de 96 mil novas casas acessíveis por dia em todo o mundo, enquanto centenas de milhões de pessoas continuam sem habitação adequada.

Cada vez que se constrói, porém, é necessário produzir cimento e aço, transportar materiais, utilizar máquinas e erguer estruturas. Todo esse processo liberta gases com efeito de estufa, dando origem ao chamado “carbono incorporado” — as emissões associadas aos materiais e à própria construção de um edifício.

A escala é significativa: construir um único metro quadrado de área pode representar aproximadamente meia tonelada de emissões de gases com efeito de estufa. O cimento, por si só, é responsável por cerca de 8% das emissões mundiais de dióxido de carbono.

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O problema vai mudar de sítio

Para perceber como esta realidade poderá evoluir, Oldfield, Craft e os restantes autores do estudo, publicado na revista científica Building and Environment, analisaram o setor dos edifícios de escritórios na Austrália.

O país tem atualmente cerca de 170 milhões de metros quadrados de escritórios e deverá construir outros 100 milhões até 2049. Os investigadores calcularam tanto o carbono incorporado como as emissões resultantes da utilização diária dos edifícios — do aquecimento e arrefecimento à iluminação e aos equipamentos.

As contas apontam para 138 milhões de toneladas de emissões de gases com efeito de estufa entre 2024 e 2049, o equivalente às emissões anuais de 36 centrais elétricas a carvão. E os escritórios representam apenas cerca de 20% dos edifícios comerciais australianos.

Mas há uma mudança importante escondida nestes números. Em 2024, as emissões resultantes da utilização dos edifícios representavam 85% do total analisado. Em 2049, deverão corresponder a apenas 15%.

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A explicação está na transformação do sistema energético australiano, com a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por fontes como a energia solar e eólica. Aquecer, iluminar e arrefecer um edifício deverá, por isso, provocar cada vez menos emissões.

O problema é que não é tão fácil descarbonizar aquilo de que os edifícios são feitos. O fabrico de cimento, aço e outros materiais continua fortemente dependente de processos intensivos em carbono. Se o ritmo de construção se mantiver, as emissões incorporadas permanecerão elevadas.

Segundo os investigadores, já na próxima década o carbono incorporado deverá ultrapassar as emissões provenientes da utilização dos edifícios e tornar-se a principal fonte de emissões do setor.

Em vez de demolir, aproveitar o que já existe

Uma das soluções pode passar por uma ideia bastante simples: antes de construir de novo, aproveitar melhor aquilo que já está de pé.

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O estudo analisou diferentes estratégias para reduzir as emissões e concluiu que, combinadas, poderiam evitar mais de 47 milhões de toneladas no setor de escritórios australiano. Entre elas estão a reabilitação de edifícios existentes e a construção de estruturas menores ou, quando possível, de menos edifícios novos.

Sydney oferece um exemplo. A Quay Quarter Tower tinha sido construída originalmente em 1976 e, décadas depois, precisava de uma transformação profunda. Em vez de demolirem a torre e começarem do zero, os responsáveis pelo projeto conservaram e reutilizaram cerca de dois terços da estrutura existente, ao mesmo tempo que aumentaram o espaço disponível.

A opção permitiu evitar cerca de 8.000 toneladas de carbono incorporado.

É uma filosofia que começa a aparecer noutros países. Algumas autoridades locais no Reino Unido adotaram políticas de “retrofit first”, segundo as quais a possibilidade de recuperar e adaptar um edifício deve ser considerada antes da demolição. Dinamarca, Finlândia, França, Países Baixos e Suécia estão também entre os países que já avançaram com medidas destinadas ao carbono incorporado.

Para Oldfield e Craft, o desafio não passa por deixar de construir. Uma população mundial crescente continuará a precisar de milhões de novas casas, escolas, locais de trabalho e outros espaços.

A questão é como fazê-lo.

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Porque, à medida que a energia utilizada pelos edifícios se torna mais limpa, uma parte cada vez maior do problema climático estará no cimento, no aço e nos materiais usados para os erguer. E quando o planeta está a construir o equivalente a uma cidade do tamanho de Nova Iorque todos os meses, a forma como cada metro quadrado é construído começa a fazer uma enorme diferença.

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