Num daqueles cenários que parecem saídos de um filme, mas são levados a sério pela ciência, investigadores alertam para um risco pouco falado: o colapso de uma das principais correntes do Atlântico pode não só alterar o clima… como acelerar ainda mais o aquecimento global.
A conclusão surge de um novo estudo divulgado pelo site ‘IFL Science’, que analisa o que pode acontecer se a chamada Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico — conhecida como AMOC — entrar em colapso.
A “corrente que aquece a Europa” está a enfraquecer
A AMOC inclui sistemas como a Corrente do Golfo, responsável por manter temperaturas mais amenas no norte da Europa. Sem ela, o clima europeu seria muito mais frio.
O problema? Esta circulação tem vindo a enfraquecer ao longo do último século.
Segundo o ‘IFL Science’, esse enfraquecimento está ligado às alterações climáticas: o degelo dos glaciares e o aumento da temperatura dos oceanos estão a alterar o equilíbrio de salinidade e temperatura que mantém estas correntes em funcionamento.
O cenário mais extremo: colapso total
Se a AMOC colapsar, os efeitos podem ser mais graves do que se pensava.
Simulações recentes indicam que esse colapso pode libertar grandes quantidades de dióxido de carbono armazenado nos oceanos — acrescentando cerca de 0,2°C ao aquecimento global já em curso.
Pode parecer pouco, mas no contexto climático é significativo: trata-se de um “empurrão extra” num sistema já sob pressão.
Um ponto de não retorno?
Um dos aspetos mais preocupantes do estudo é a possibilidade de não haver recuperação.
Segundo os investigadores, níveis mais elevados de CO₂ tornam a AMOC instável. E, uma vez interrompida, pode permanecer “desligada” durante séculos.
Hoje, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera ronda as 430 partes por milhão — muito acima dos níveis em que o sistema ainda conseguiria recuperar.
Impactos globais (e inesperados)
O colapso desta corrente não teria apenas efeitos locais. As consequências seriam globais — e, em alguns casos, contraintuitivas.
As simulações apontam para um aquecimento adicional do planeta, mas também para contrastes extremos: a Antártida poderia aquecer significativamente, enquanto o Ártico poderia arrefecer.
Tudo isto devido a mudanças profundas na circulação oceânica e na forma como o carbono é armazenado e libertado.
O oceano pode deixar de ser “aliado”
Atualmente, os oceanos absorvem cerca de um quarto das emissões de CO₂ produzidas pelo ser humano — funcionando como um travão natural ao aquecimento global.
Mas esse papel pode inverter-se.
Segundo o estudo citado pelo ‘IFL Science’, um colapso da AMOC pode transformar partes do oceano, especialmente o Antártico, numa fonte de carbono — libertando mais CO₂ para a atmosfera e agravando o problema.
Um alerta com implicações a longo prazo
O mais inquietante neste cenário é o efeito em cadeia: quanto mais CO₂ houver na atmosfera no momento de um eventual colapso, maior será o impacto adicional no aquecimento global.
Ou seja, as decisões atuais podem determinar a intensidade de uma crise futura.
E, ao contrário de muitos fenómenos climáticos, este não se resolve em anos — pode durar séculos.




