O investimento imobiliário em Portugal vive um dos períodos mais dinâmicos dos últimos anos. Após a fase de ajustamento provocada pela subida das taxas de juro, o mercado mostra sinais de estabilização e um renovado otimismo por parte dos investidores.
Em entrevista à Executive Digest, Pedro Figueiras, Diretor de Investimento da Savills, analisa a evolução recente do setor, destaca os segmentos que mais têm contribuído para o dinamismo do mercado e antecipa os principais desafios e oportunidades que marcarão 2026.
Como caracteriza o momento atual do mercado imobiliário de investimento em Portugal?
Após um período de correção de expectativas devido ao aumento das taxas de juro, começamos agora a observar sinais de estabilização, impulsionados pela perspetiva de uma política monetária mais favorável por parte do BCE.
Os investidores estão mais otimistas e o interesse por ativos de qualidade e com localizações prime permanece elevado em todos os segmentos.
Portugal mantém fundamentos sólidos – como a estabilidade política, um enquadramento jurídico seguro e uma forte procura internacional – que continuam a posicionar o país como um destino atrativo e competitivo no contexto europeu.
Que análise faz dos dados relativos ao ano de 2025 até ao momento?
No acumulado até ao final do terceiro trimestre de 2025, o mercado registou um volume total de investimento na ordem dos 1,8 mil milhões de euros, refletindo um crescimento expressivo superior a 60% face ao período homólogo de 2024. O 3º trimestre reforçou o atual dinamismo do mercado português, com uma variação positiva de 50% face ao mesmo trimestre do ano anterior.
Considerando os vários processos em mercado atualmente, podemos antever que provavelmente será um dos melhores anos de sempre, apenas ultrapassado pela performance de 2022.
Quais foram os principais setores ou ativos a destacar neste período?
Os setores de Retail e Hospitality representaram, em conjunto, mais de 50% do volume total de investimento registado nos primeiros nove meses de 2025, com crescimentos homólogos de 99% e 21%, respetivamente. No segmento de retalho, os Centros Comerciais destacaram-se como a classe de ativos mais dinâmica, com um volume superior a 500 milhões de euros investidos.
Retalho recupera o seu espaço natural como segmento de relevância no nosso mercado, Hospitality é um claro reflexo de ser uma indústria preponderante na economia nacional e com uma performance notável. Importa destacar o regresso dos escritórios ao radar dos investidores e que gradualmente recupera volume.
Que impacto prevê das taxas de juro e do contexto macroeconómico no investimento imobiliário?
À semelhança das obrigações, as taxas diretoras apenas conseguem influenciar yield curve no curto prazo; no longo é o mercado que o dita. Assim, existindo a expectativa de manutenção das taxas diretoras no atual patamar, os investidores estão muito mais focados nos fundamentals do nosso mercado e dos próprios ativos.
Os fundamentals do nosso mercado são positivos, com crescimento acima da média, custos de energia competitivos no panorama europeu, conjugados com uma disciplina orçamental que permite a Portugal ser um destino de atração de investimento, a ter reflexo na performance do mercado imobiliário comercial.
Que segmentos do mercado (escritórios, logística, retalho, residencial, alternativos) estão a atrair maior interesse dos investidores?
O mercado está num momento onde é difícil diferenciar o apetite por determinada classe de ativos, uma vez que devido à boa dinâmica nacional os vários sectores se encontram a performar muito bem.
Como referido anteriormente, os escritórios estão a recuperar a atenção dos investidores, dados os fundamentais positivos de ocupação que se verificam no sector e a baixíssima oferta de ativos de qualidade em zonas prime.
Retalho e Hospitality continuam a atrair o foco sendo duas indústrias muito relevantes na nossa economia, pelo que continuarão no radar das preferências dos investidores.
No que toca à I&L, as intenções de investimento no mercado deixam-nos antever o maior pipeline de sempre em desenvolvimento no setor, enquanto o volume de transações de ativos existente demonstra um significativo crescimento.
Residencial, PBSA ou Senior são setores claramente deficitários em termos de oferta, pelo que a disponibilidade de capital para desenvolver produto é abundante e nos deixa antever um período entusiasmante para estes sectores.
Nota alguma mudança no perfil ou na origem dos investidores?
O mercado imobiliário português continua a afirmar-se como um destino sólido e atrativo para capital nacional e internacional, refletindo a crescente sofisticação e maturidade do setor.
Diria que para quase todos os setores observamos cada vez mais capital disponível para promoção de novos projetos, bem como maior disponibilidade de capital focado em ativos prime e estabilizados.
Na origem do capital, além das habituais geografias europeias, verifica-se um claro aumento da disponibilidade de capital norte-americano para os vários setores e estratégias.
Que fatores considera determinantes para o sucesso do mercado imobiliário de investimento nos próximos anos?
A par dos bons fundamentais do país anteriormente mencionados, será fundamental fomentar a continuidade desta trajetória de crescimento, assim como da trajetória descendente da divida da República, ao mesmo que tempo se promove uma redução dos custos de contexto do nosso país.
Em quase todas as classes de ativos estamos deficitários de stock ou, pelo menos, stock mais moderno, pelo que os custos de contexto não só retiram eficiência, como também poderão ser dissuasores de decisões de investimento.
Por outro lado, num quadro de inflação mais persistente o imobiliário é sempre uma classe de ativos refúgio para a preservação de valor. Verificando-se este cenário, não seria de excluir um significativo refúgio de capital nesta classe de ativos.
Se tivesse de identificar um risco e uma oportunidade para 2026, quais destacaria?
Se tivesse de destacar um risco seria o facto de sermos uma economia cada vez mais aberta e exposta, e por isso não nos é possível distanciar ou imunizar do que possa acontecer globalmente. No que às oportunidades respeita, o difícil é escolher uma, mas diria que os segmentos deficitários de produto são sem dúvida uma oportunidade no nosso mercado.













