O medo nunca foi da tecnologia, mas do pensar

Opinião de Carla Geraldes. Project Manager na LTPlabs

Executive Digest

Por Carla Geraldes. Project Manager na LTPlabs

Sempre que o conhecimento muda de forma, instala-se o medo. Não porque o saber desapareça, mas porque o poder muda de mãos. Durante séculos, ler não foi um direito, foi um risco. Livros proibidos e censura mostram que o receio nunca esteve no objeto, mas no efeito: pessoas a pensar de forma autónoma. Questionar sempre foi visto como potencialmente subversivo.

No século XX, o padrão manteve-se. Regimes autoritários controlaram livros, currículos e discursos públicos. O conhecimento tinha guardiões. Pensar fora do permitido tinha consequências. O problema nunca foi a leitura em si, mas o que acontece quando mais pessoas formam opinião própria.

Com a produção em massa de livros e enciclopédias, o conhecimento ganhou forma física e estatuto. O que estava impresso parecia definitivo. Ter livros era sinónimo de saber. Ainda assim, surgiram receios: informação a mais, profundidade a menos. Sempre que o acesso se alarga, repete se o argumento da banalização.

Com a internet, o controlo tornou-se difuso. O conhecimento deixou de ser escasso e passou a imediato. Saber passou a significar procurar, comparar e interpretar. Produzem-se diariamente mais de 2,5 quintilhões de bytes de dados. Nunca houve tanto acesso e nunca foi tão evidente que acesso não é compreensão.

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A ciência não enfraqueceu. Tornou-se mais colaborativa e rápida. Durante a pandemia, a partilha acelerada de dados permitiu respostas inéditas. O método científico manteve-se; mudou a velocidade.

A inteligência artificial generativa leva o debate mais longe. Não apenas organiza informação, também produz texto e analisa dados. Surgem receios de preguiça intelectual e perda de autenticidade. No entanto, a adoção é massiva e transversal às empresas, à investigação e ao cidadão comum.

Na ciência, a IA acelera descoberta de fármacos, modela sistemas complexos e identifica padrões invisíveis. Não substitui o cientista; desloca o seu foco. Quando a informação é abundante, repetir perde valor. O que conta é julgamento, interpretação e responsabilidade.

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No mundo empresarial, a IA transforma estratégia, inovação e produtividade. A vantagem competitiva já não está em saber mais, mas em pensar melhor com mais informação disponível. Resistir por nostalgia não é prudência, é imobilismo.

A história é clara. O conhecimento foi temido e censurado. Previu-se decadência intelectual. Nunca se confirmou. Mudou a forma, não a necessidade de pensar.

A questão não é se a inteligência artificial vai mudar a forma como aprendemos e trabalhamos. Isso já aconteceu. A questão é se estamos preparados para abandonar a ideia de que o conhecimento é estático e controlável. Talvez a IA não substitua o pensamento. Talvez nos esteja apenas a obrigar a pensar melhor.

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