Estão nas prateleiras dos supermercados, nas máquinas de venda automática, nas embalagens coloridas e nos menus de refeições rápidas. São baratos, práticos, altamente apelativos — e cada vez mais apontados por especialistas como um dos grandes problemas da alimentação moderna. Os alimentos ultraprocessados voltam a estar no centro do debate sobre saúde pública.
Num artigo publicado no ‘The Independent’, vários especialistas defendem que estes produtos estão a contribuir para o declínio da saúde, sobretudo porque ajudam a aumentar o consumo de calorias, açúcar, sal e gordura, muitas vezes sem dar verdadeira saciedade. O tema ganhou novo peso depois de o ‘American Journal of Public Health’ ter dedicado uma edição especial aos riscos dos alimentos ultraprocessados para a saúde pública.
A definição mais simples é esta: se a embalagem inclui ingredientes que normalmente não existem numa cozinha doméstica, como emulsionantes, aromatizantes ou determinados aditivos, há uma forte probabilidade de ser um alimento ultraprocessado. A explicação é de Chris Van Tulleken, autor de “Ultra-Processed People”, citado no artigo.
No Reino Unido e nos Estados Unidos, estes produtos já representam mais de metade das calorias consumidas pelos adultos. Entre as crianças, a proporção aproxima-se dos dois terços, segundo Ashley Gearhardt, professora de psicologia na Universidade do Michigan. O problema, dizem os especialistas, não está apenas na presença destes alimentos, mas na forma como foram desenhados para serem difíceis de largar.
A combinação de hidratos de carbono refinados, gordura e sal cria aquilo a que Gearhardt chama o “ponto de prazer”: uma fórmula que estimula o cérebro, aumenta a vontade de continuar a comer e raramente deixa uma sensação de satisfação duradoura. David Cox, neurocientista e autor de “The Age Code”, lembra que o corpo humano evoluiu num ambiente em que as calorias eram escassas. Hoje, porém, esses produtos altamente densos em energia estão disponíveis em permanência.
Segundo os especialistas ouvidos pelo ‘The Independent’, este ambiente alimentar ajuda a explicar porque tantas pessoas consomem mais calorias do que precisam. Com o tempo, essa diferença pode alterar a composição corporal, reduzindo músculo e aumentando gordura visceral, um tipo de gordura interna associado a processos inflamatórios.
A investigação também tem associado o consumo elevado de ultraprocessados a piores resultados de saúde. Entre os riscos referidos estão síndrome metabólica, diabetes, cancro, aumento do índice de massa corporal, alterações da glicemia e da tensão arterial, bem como maior risco de demência e défice cognitivo em pessoas mais velhas. A revista The Lancet publicou recentemente uma série de artigos sobre a expansão global destes alimentos e a sua associação a doenças crónicas não transmissíveis.
Mas nem todos os ultraprocessados têm o mesmo impacto. Gearhardt aponta como principais alvos as bebidas açucaradas, snacks salgados, produtos de pastelaria embalados, carnes processadas e muitos artigos de fast food. São estes, diz, que dominam o ambiente alimentar moderno e aparecem de forma mais consistente associados a maus resultados de saúde.
Reduzir o consumo, no entanto, não é apenas uma questão de força de vontade. Os especialistas sublinham que estes produtos são baratos, convenientes, agressivamente promovidos e muitas vezes mais acessíveis do que alimentos frescos ou pouco processados. Por isso, defendem medidas públicas, como rotulagem mais clara, avisos na frente das embalagens, restrições à publicidade dirigida a crianças e maior investimento para tornar alimentos minimamente processados mais fáceis de comprar.
Para o consumidor, a regra prática é menos sofisticada: olhar para a lista de ingredientes. Alimentos que continuam a parecer comida, com ingredientes simples e reconhecíveis, tendem a ser melhores escolhas. Já produtos que prometem saúde, energia ou conveniência, mas trazem uma longa lista de aditivos, aromatizantes e ingredientes industriais, merecem mais atenção.
A mensagem final não é transformar a alimentação numa fonte permanente de medo. É perceber que o problema deixou de ser ocasional. Quando uma parte tão grande da dieta diária vem de produtos feitos para serem consumidos em excesso, a escolha individual passa a estar a competir com uma máquina alimentar muito bem montada. E é aí que os especialistas querem que o alerta seja levado a sério.














