O inimigo escondido no carrinho de compras: os alimentos práticos que podem estar a fazer-nos envelhecer mais depressa

Estão nas prateleiras dos supermercados, nas máquinas de venda automática, nas embalagens coloridas e nos menus de refeições rápidas. São baratos, práticos, altamente apelativos — e cada vez mais apontados por especialistas como um dos grandes problemas da alimentação moderna

Francisco Laranjeira

Estão nas prateleiras dos supermercados, nas máquinas de venda automática, nas embalagens coloridas e nos menus de refeições rápidas. São baratos, práticos, altamente apelativos — e cada vez mais apontados por especialistas como um dos grandes problemas da alimentação moderna. Os alimentos ultraprocessados voltam a estar no centro do debate sobre saúde pública.

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Num artigo publicado no ‘The Independent’, vários especialistas defendem que estes produtos estão a contribuir para o declínio da saúde, sobretudo porque ajudam a aumentar o consumo de calorias, açúcar, sal e gordura, muitas vezes sem dar verdadeira saciedade. O tema ganhou novo peso depois de o ‘American Journal of Public Health’ ter dedicado uma edição especial aos riscos dos alimentos ultraprocessados para a saúde pública.

A definição mais simples é esta: se a embalagem inclui ingredientes que normalmente não existem numa cozinha doméstica, como emulsionantes, aromatizantes ou determinados aditivos, há uma forte probabilidade de ser um alimento ultraprocessado. A explicação é de Chris Van Tulleken, autor de “Ultra-Processed People”, citado no artigo.

No Reino Unido e nos Estados Unidos, estes produtos já representam mais de metade das calorias consumidas pelos adultos. Entre as crianças, a proporção aproxima-se dos dois terços, segundo Ashley Gearhardt, professora de psicologia na Universidade do Michigan. O problema, dizem os especialistas, não está apenas na presença destes alimentos, mas na forma como foram desenhados para serem difíceis de largar.

A combinação de hidratos de carbono refinados, gordura e sal cria aquilo a que Gearhardt chama o “ponto de prazer”: uma fórmula que estimula o cérebro, aumenta a vontade de continuar a comer e raramente deixa uma sensação de satisfação duradoura. David Cox, neurocientista e autor de “The Age Code”, lembra que o corpo humano evoluiu num ambiente em que as calorias eram escassas. Hoje, porém, esses produtos altamente densos em energia estão disponíveis em permanência.

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Segundo os especialistas ouvidos pelo ‘The Independent’, este ambiente alimentar ajuda a explicar porque tantas pessoas consomem mais calorias do que precisam. Com o tempo, essa diferença pode alterar a composição corporal, reduzindo músculo e aumentando gordura visceral, um tipo de gordura interna associado a processos inflamatórios.

A investigação também tem associado o consumo elevado de ultraprocessados a piores resultados de saúde. Entre os riscos referidos estão síndrome metabólica, diabetes, cancro, aumento do índice de massa corporal, alterações da glicemia e da tensão arterial, bem como maior risco de demência e défice cognitivo em pessoas mais velhas. A revista The Lancet publicou recentemente uma série de artigos sobre a expansão global destes alimentos e a sua associação a doenças crónicas não transmissíveis.

Mas nem todos os ultraprocessados têm o mesmo impacto. Gearhardt aponta como principais alvos as bebidas açucaradas, snacks salgados, produtos de pastelaria embalados, carnes processadas e muitos artigos de fast food. São estes, diz, que dominam o ambiente alimentar moderno e aparecem de forma mais consistente associados a maus resultados de saúde.

Reduzir o consumo, no entanto, não é apenas uma questão de força de vontade. Os especialistas sublinham que estes produtos são baratos, convenientes, agressivamente promovidos e muitas vezes mais acessíveis do que alimentos frescos ou pouco processados. Por isso, defendem medidas públicas, como rotulagem mais clara, avisos na frente das embalagens, restrições à publicidade dirigida a crianças e maior investimento para tornar alimentos minimamente processados mais fáceis de comprar.

Para o consumidor, a regra prática é menos sofisticada: olhar para a lista de ingredientes. Alimentos que continuam a parecer comida, com ingredientes simples e reconhecíveis, tendem a ser melhores escolhas. Já produtos que prometem saúde, energia ou conveniência, mas trazem uma longa lista de aditivos, aromatizantes e ingredientes industriais, merecem mais atenção.

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A mensagem final não é transformar a alimentação numa fonte permanente de medo. É perceber que o problema deixou de ser ocasional. Quando uma parte tão grande da dieta diária vem de produtos feitos para serem consumidos em excesso, a escolha individual passa a estar a competir com uma máquina alimentar muito bem montada. E é aí que os especialistas querem que o alerta seja levado a sério.

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