O golpe de mestre de Putin para ganhar vantagem na guerra energética com a Europa

“A armadilha da Rússia é que quer que a Europa continue a manter a sua dependência, sem que a Rússia tenha de depender da Europa”, explicou o professor José Manuel Muñoz

Francisco Laranjeira

A Rússia é uma ‘ficção’ escrita em letras maiúsculas por Vladimir Putin e pelos seus aliados e agora um dos seus grandes trunfos, a força económica que a energia lhe dá, está exposta à rutura. A resposta europeia à invasão da Ucrânia obrigou Moscovo a procurar novos parceiros comerciais para o seu gás e petróleo. E tudo aponta para uma viragem para a Ásia, sobretudo o ‘suposto’ aliado chinês que Putin tanto preciso como teme – o presidente russo reservou, no entanto, o seu ás na manga: o ‘Power of Siberia 2’ é uma infraestrutura em construção que vai permitir ao gás russo ser desviado tanto para leste como para oeste – China ou Europa. Uma moeda ao ar que vai cair de um lado ou de outro à medida que o conflito na Ucrânia for ficando resolvido.

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“A armadilha da Rússia é que quer que a Europa continue a manter a sua dependência, sem que a Rússia tenha de depender da Europa”, explicou o professor José Manuel Muñoz, em declarações ao jornal espanhol ‘ABC’. “A Europa e a Rússia são muito dependentes da energia. E a armadilha da Rússia é que quer que a Europa continue a manter essa subordinação, sem ter de depender da Europa. Mas o grande problema que Moscovo tem é que a Ásia pode, no máximo, aspirar a ser um substituto do que era o mercado europeu”, explicou o professor de Economia Internacional na Universidad Nebrija, em Madrid.

Margarita Balmaceda, investigadora do ‘Harvard Ukrainian Research Institute’ da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, recordou que na UE o debate ainda está vivo sobre se as sanções à Rússia “podem estender-se a não permitir que as empresas europeias transportem o seu petróleo, e isso pode afetar a capacidade da Rússia, especialmente quando os seus compradores não têm a sua própria frota de transporte”.

E quanto ao gás? Muñoz indicou que a Europa está à procura de alternativas à Rússia, como a Noruega, a Argélia ou o Qatar, entre outros candidatos. “Mas, a longo prazo, se a proposta de todos for a descarbonização, isso deixaria a Rússia numa posição bastante ultrapassada”, apontou. Putin precisa então de alternativas. Num contexto em que as trocas comerciais entre a Rússia e a China atingiram o seu máximo histórico – 140.587 milhões de euros – Pequim parece ser a alternativa natural para o gás russo. “O ‘Power of Siberia 2’ é o megaoleoduto que iria salvar a Rússia das sanções europeias”, frisou.

E no futuro Putin pretende triplicar o gás que fornece. Além disso, com as novas rotas árticas que se vão abrir com o degelo polar e através o gasoduto ‘Artic LNG2’. Mas nem tudo é tão simples nesta suposta aliança. Balmaceda referiu que “os chineses têm sido muito duros na negociação dos preços do gás natural russo. Estão a pagar um terço do que a Rússia cobra à Europa. A China seria uma salvação matinal porque os preços para Moscovo, quando exporta para a China, não são muito atrativos. Então, a Rússia e a China são aliados? Na superfície sim, mas no fundo são adversários. A Rússia tem medo da China porque toda a região do sul da Sibéria é uma área muito frágil e não quer que seja fortalecida. A China tem as suas próprias aspirações globais que são mais importantes do que a Rússia.”

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Enquanto todos falam do ‘Nord Stream 2’, o ás na manga de Putin neste jogo seria ‘Power of Siberia 2’. Segundo Muñoz, é a joia da coroa de Moscovo, ao estabelecer a interligação dos sistemas de gasodutos a leste e oeste e com o atual poder da Sibéria. Ou seja, Putin teria a chave e a capacidade de determinar se o gás russo vai para a China ou para a Europa. Prevê-se que esteja pronto em 2030 e poderá fornecer cerca de 50 mil milhões de metros cúbicos de gás anualmente à China.

Outro novo jogador seria a Índia, que é o terceiro maior importador de petróleo do mundo. O Governo indiano não condenou a invasão da Ucrânia mas também não parece disposta a virar as costas ao Ocidente – a sua inimizade com a China e o Paquistão deixa um equilíbrio difícil de atingir. Nesta encruzilhada de interesses, a Turquia quer jogar muito bem as suas cartas, pois segundo Muñoz, “tem uma situação privilegiada e quer ter um papel mais ativo nesta reconfiguração mundial”. Utilizando a linguagem da Guerra Fria, seria um país não alinhado, favorecendo ambos.

“Se as alternativas asiáticas falharem, Putin pode sempre ficar com uma Europa que não está unida.” A Áustria está relutante e a Hungria não apoia a Ucrânia. Além disso, a infraestrutura de muitos Estados europeus e das suas indústrias só é feita para receber o tipo de petróleo que a Rússia fabrica. “No caso da Hungria, Eslováquia ou Alemanha, a transição é enorme e os populismos que surgem da agitação sobre as perdas económicas podem inclinar-se para os pró-russos”, garantiu Balmaceda. Se Putin pode forçar o povo russo a “comer mais batatas”, isso já é mais complicado para os políticos da UE.

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