O futuro tem seis patas e assusta alguns: Cientistas criam baratas ciborgues e dão-lhes ‘superpoderes’

As baratas são conhecidas pela sua capacidade de infiltração em locais de difícil acesso, pela resistência extrema e pela sua capacidade de sobrevivência em ambientes hostis.

Pedro Gonçalves
Março 16, 2025
12:30

As baratas são conhecidas pela sua capacidade de infiltração em locais de difícil acesso, pela resistência extrema e pela sua capacidade de sobrevivência em ambientes hostis. Agora, um grupo de cientistas da Universidade de Osaka, no Japão, e da Universidade Diponegoro, na Indonésia, decidiu tirar partido destas características para criar baratas ciborgues, combinando os seus atributos naturais com tecnologia avançada.

A ideia consiste em equipar as baratas com um sistema eletrónico que lhes permite ser guiadas por comandos remotos, utilizando um pequeno dispositivo montado no seu dorso. O objetivo é explorar a sua capacidade de deslocação em espaços apertados e perigosos, tornando-as potencialmente útis em operações de busca e salvamento, assim como em aplicações mais controversas, como a vigilância.

A combinação entre biologia e tecnologia
A equipa de cientistas optou por usar baratas-da-Madagáscar (Gromphadorhina portentosa), devido à sua robustez e capacidade de mobilidade em ambientes adversos. Segundo Mochammad Ariyanto, engenheiro mecânico da Universidade Diponegoro e autor principal do estudo, a motivação para o projeto foi simplificar o desenvolvimento da robótica em pequena escala: “A criação de um robô funcional em tamanho reduzido é um desafio; queríamos contornar esse obstáculo mantendo as coisas simples. Ao anexarmos dispositivos eletrónicos a insetos, conseguimos evitar os detalhes mais complexos da engenharia robótica e focarmo-nos nos nossos objetivos.”

Os investigadores desenvolveram um sistema chamado “navegação biohíbrida baseada em comportamento” (BIOBBN), que consiste em dois algoritmos de navegação distintos: um projetado para ambientes simples e outro para terrenos mais complexos. O primeiro utiliza um “mochila” eletrónica maior e mais pesada, enquanto o segundo requer um dispositivo mais compacto e leve, permitindo um movimento mais eficiente em cenários desafiadores.

Testes em terrenos irregulares
Para avaliar o desempenho das baratas ciborgues, os cientistas criaram um percurso experimental que simulava terrenos acidentados, contendo areia, rochas e madeira. Durante os testes, os comandos de navegação foram aplicados apenas quando necessário, permitindo que os insetos explorassem o ambiente de forma autónoma e utilizando os seus comportamentos naturais, como escalar paredes e contornar obstáculos.

“Este algoritmo aproveitou os comportamentos naturais das baratas, como seguir paredes e escalar, para navegar pelos desafios do percurso”, explicam os autores do estudo. “O segundo cenário, mais denso, exigiu mais tempo devido à necessidade de evitar obstáculos e ao comportamento de escalada.”

A equipa espera que estas baratas modificadas possam ser utilizadas para inspeção de escombros em cenários de guerra ou desastres naturais, ajudando a localizar sobreviventes e resgatar equipas em situação de perigo. Além disso, podem ser útis na recolha de dados em espaços inexploráveis por humanos, como tubagens subterrâneas ou locais de património histórico sensíveis. No entanto, os cientistas reconhecem que a aplicação da tecnologia em missões de vigilância levanta questões éticas preocupantes.

Keisuke Morishima, engenheiro de robótica da Universidade de Osaka, acredita que esta abordagem biohíbrida tem vantagens face aos robôs puramente mecânicos: “Os nossos insetos ciborgues conseguem atingir objetivos com menos esforço e energia do que robôs tradicionais. O nosso sistema de navegação autónoma resolve problemas que desafiaram a robótica até agora, como recuperar-se de uma queda. Isto é essencial para que estas tecnologias saiam do laboratório e sejam aplicadas no mundo real.”

A investigação foi publicada na revista Soft Robotics, mas continua sem uma resposta definitiva a uma questão essencial: como se sentem as baratas em relação a tudo isto?

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