A violência política nos Estados Unidos, assim como a tolerância para com ela, continuam a crescer, indicam os dados recolhidos pelas agências federais e a natureza das respostas oficiais a tais crimes. O assassinato de uma congressista do Minnesota e do seu marido, e a tentativa de assassinato de um senador pelo mesmo estado, são os exemplos mais recentes desta tendência.
“Tal como os tiroteios nas escolas, a violência política está a tornar-se quase rotineira”, referiu a publicação ‘The New York Times’. “Só nos últimos três meses, um homem ateou fogo à residência do governador enquanto Shapiro [governador democrata da Pensilvânia] e a sua família dormiam no interior; outro alvejou dois funcionários da Embaixada de Israel à porta de um evento em Washington; manifestantes que pediam a libertação de reféns israelitas em Boulder, no Colorado, foram incendiados; e a sede do Partido Republicano no Novo México e um concessionário da Tesla perto de Albuquerque foram alvo de ataques com bombas incendiárias.”
Segundo dados recolhidos pela ‘Bridging Divides Initiative’ da Universidade de Princeton, as ameaças e incidentes contra as autoridades nos EUA aumentaram 87% entre julho de 2022 e julho de 2024. Só no ano passado, registaram-se mais de 600 ameaças contra as autoridades locais, principalmente mulheres e minorias.
Num estudo compilado com dados de agências governamentais pelo Centro de Combate ao Terrorismo de West Point, apurou-se que entre 2013 e 2016 houve uma média anual de 38 crimes federais por ameaças contra funcionários públicos. Entre 2017 e 2022, a média subiu para 62 crimes federais por ano. Os dados preliminares de 2023 e 2024 indicaram um “novo recorde”.
Alguns destes casos fazem manchetes: os ataques contra Donald Trump ou o recente assassinato da congressista Melissa Hortman e do seu marido, mas a grande maioria continua quase fora do radar: ameaças às autoridades eleitorais, marchas neonazis em plena luz do dia e um clima geral de “hostilidade” em relação a qualquer pessoa envolvida na política.
Uma sondagem de Princeton, realizada a 4 mil autoridades locais, em 2023 e 2024, constatou que mais de metade tinha sofrido ameaças e assédio. Um relatório do ‘Brennan Center for Justice’ concluiu que este clima de hostilidade “prejudicou a capacidade das autoridades eleitas de se envolverem com os cidadãos, limitou as suas opções políticas e desmotivou a continuidade do serviço público”.
Um dos autores da investigação de West Point, Peter Simi, da Universidade de Chapman, garantiu que este aumento da violência política é um sintoma de duas causas com as quais o mundo já está familiarizado: a intensificação da polarização política e o declínio da confiança nas instituições.
Um aspeto mais difícil de medir é a reação política a estes crimes. A maioria dos líderes de ambos os partidos condenou este tipo de atos, que ocorre tanto contra progressistas como conservadores. Mas surgem frequentemente mensagens que procuram explorar o assassinato, como no caso do Minnesota. Quando os americanos acordaram com a notícia, já corriam nas redes sociais especulações e teorias da conspiração.
O pior ato de violência política dos últimos anos nos Estados Unidos foi o ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, no qual membros do Congresso escaparam por pouco de uma multidão violenta. Uma mentira que o próprio presidente em fim de mandato tinha espalhado minutos antes do ataque num comício em frente ao Congresso.
Desde que Trump regressou à Casa Branca, tem feito um esforço multifacetado para reformular aquele episódio, que fez 174 polícias feridos e um total de cinco mortos em 36 horas, como o ato de patriotas indignados com o alegado golpe. Uma das suas primeiras ações foi perdoar os quase 1.500 arguidos nos julgamentos, resultado da maior investigação policial da história do país, que para ele eram simultaneamente “patriotas” e “reféns”. E usou os acontecimentos desse dia como forma de medir a lealdade dos seus subordinados e até dos funcionários de agências como o FBI, que, segundo o ‘The Washington Post’, tiveram de responder a esta pergunta: “A 6 de janeiro de 2021, quem eram os patriotas?”
Os pequenos e esporádicos protestos em Los Angeles, desencadeados por rusgas indiscriminadas e que a polícia da cidade afirmou ter conseguido controlar, foram motivo suficiente para Trump mobilizar a Guarda Nacional e os fuzileiros, embora não sejam treinados como forças de controlo de distúrbios, mas sim como forças letais. Os dados mostram que a violência política está a aumentar. Assim como a retórica, sempre em nome dos “verdadeiros americanos”.














