O futuro da gestão de ativos passa pela inteligência artificial? Qual a estratégia para captar investidores? Eis o que dizem os especialistas

A indústria global de gestão de ativos está a atravessar uma mudança estrutural, impulsionada pela inteligência artificial (IA), pela tokenização de ativos e por uma crescente necessidade de captar novos investidores.

André Manuel Mendes

A indústria global de gestão de ativos está a atravessar uma mudança estrutural, impulsionada pela inteligência artificial (IA), pela tokenização de ativos e por uma crescente necessidade de captar novos investidores.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Apesar de os ativos sob gestão terem atingido um recorde de 147 biliões de dólares em 2025, o setor continua fortemente dependente da evolução dos mercados, alerta a Boston Consulting Group (BCG).

Segundo o estudo Global Asset Management Report 2026: An Imperative for Growth, os ativos sob gestão cresceram 11% no último ano, mas mais de 80% do crescimento bruto das receitas resultou da valorização dos mercados financeiros, evidenciando a dependência de fatores externos para sustentar a expansão da indústria.

A consultora defende que o próximo ciclo de crescimento dependerá cada vez menos da performance dos mercados e mais da capacidade das gestoras para captar novos fluxos de investimento, reforçar a distribuição e transformar os seus modelos operacionais.

Embora os ativos sob gestão tenham quase triplicado desde 2010, as margens agregadas do setor mantiveram-se próximas dos 30%. No mesmo período, as receitas cresceram, em média, 5,1% por ano, enquanto os custos aumentaram 5,4%, refletindo uma pressão crescente sobre a rentabilidade. Entre os fatores apontados pela BCG estão a compressão das comissões, o crescimento dos produtos passivos e dos ETF e o aumento do investimento em tecnologia.

Continue a ler após a publicidade

O estudo mostra também que o mercado está a tornar-se mais competitivo. Nos Estados Unidos, os dez maiores fornecedores de fundos passivos e ETF concentraram mais de 90% dos fluxos líquidos desde 2015. Já na gestão ativa, a concentração diminuiu, com a quota dos dez maiores gestores a cair de 63% para 56% na última década. Na Europa e na Ásia-Pacífico, tanto os mercados ativos como os passivos registam uma menor concentração, enquanto nos mercados privados o capital continua a concentrar-se num número cada vez mais reduzido de gestores.

Perante este cenário, a BCG considera que a distribuição assume um papel cada vez mais estratégico. Mais do que desenvolver novos produtos, as gestoras terão de garantir presença nos canais onde os investidores tomam decisões, integrar-se nas plataformas de investimento e reforçar a proximidade aos clientes.

A inteligência artificial surge como um dos principais motores desta transformação. Segundo a consultora, a tecnologia poderá reduzir os custos operacionais entre 25% e 35% nos próximos três a cinco anos. Além disso, poderá multiplicar entre duas e cinco vezes a capacidade de análise e aumentar entre três e cinco vezes o número de clientes acompanhados por cada gestor de relação, através da sua aplicação à investigação, operações, distribuição, negociação e personalização de soluções de investimento.

Apesar deste potencial, a BCG alerta que muitas organizações continuam numa fase inicial da adoção da IA, limitando-se a projetos-piloto em vez de promoverem uma transformação abrangente dos seus modelos operacionais e da gestão de dados.

A Europa surge igualmente como uma região com potencial de crescimento. O relatório destaca que os ativos de pensões capitalizados representam, em média, apenas cerca de 33% do PIB da Europa Continental, com países como Alemanha, Itália e Espanha ainda em níveis reduzidos. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população deverá acelerar a transição para sistemas de poupança e investimento de longo prazo.

Continue a ler após a publicidade

Além disso, cerca de metade dos investidores globais pretende aumentar a diversificação geográfica das suas carteiras, sendo a Europa o principal destino apontado por 46% dos inquiridos. Para a BCG, esta tendência poderá criar oportunidades para gestoras com forte presença local, incluindo em Portugal.

A consultora destaca ainda o crescente papel da tokenização de ativos. Num segundo estudo, The Future of Digital Assets, estima que os ativos reais tokenizados possam atingir 14 biliões de dólares até 2030 e cerca de 55 biliões até 2035, podendo representar aproximadamente 16% dos ativos globais investíveis nesse horizonte.

A tokenização poderá transformar áreas como a liquidação de operações, a criação e distribuição de produtos financeiros, a custódia e a gestão de colaterais. Embora o mercado ainda seja reduzido, a BCG identifica sinais de adoção institucional, sobretudo em fundos tokenizados, operações de recompra (repo), colaterais e alguns instrumentos de rendimento fixo.

A principal conclusão dos dois estudos é clara: o futuro da gestão de ativos dependerá cada vez mais da capacidade das gestoras para combinar tecnologia, eficiência operacional e proximidade aos investidores, reduzindo a dependência da valorização dos mercados e construindo novas fontes de crescimento.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.