O fim do “ciclo da guerra”: Defesa torna-se investimento permanente e muda mercados

A defesa está a deixar de ser vista como um setor cíclico para assumir um papel estrutural na economia global, numa transformação que está a alterar profundamente a forma como o capital é alocado.

André Manuel Mendes

A defesa está a deixar de ser vista como um setor cíclico para assumir um papel estrutural na economia global, numa transformação que está a alterar profundamente a forma como o capital é alocado. A conclusão é de Diego Franzin, responsável de estratégias de portefólio da Plenisfer Investments, que defende que o conceito tradicional de rearmamento já não explica o que está em curso.

Durante décadas, o setor da defesa foi tratado pelos mercados financeiros como uma aposta tática, dependente de ciclos geopolíticos. No entanto, essa leitura está a tornar-se obsoleta. Em vez de um simples ciclo, assiste-se agora a uma reorganização do investimento público e privado em torno de uma nova categoria económica: a segurança física e digital.

A diferença, sublinha o responsável, é estrutural. Enquanto um ciclo é reversível, uma infraestrutura acumula-se ao longo do tempo. E é precisamente essa lógica que começa a dominar o setor.

A mudança é visível na própria composição dos sistemas militares. Nos anos 90, os componentes eletrónicos e de software representavam menos de 20% do valor de um sistema avançado; atualmente, esse peso já atinge entre 35% e 45%, refletindo uma transição de plataformas físicas para sistemas integrados de recolha e processamento de informação. Este salto traduz-se também num modelo económico distinto, com receitas mais recorrentes e maior necessidade de atualização contínua.

Empresas europeias ilustram esta transformação. A Rheinmetall, tradicional fabricante de munições e veículos blindados, pretende gerar até um terço das suas receitas a partir de atividades digitais até 2030, com margens superiores às do negócio tradicional. Já a espanhola Indra aposta em áreas de elevada tecnologia para impulsionar crescimento e rentabilidade.

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Este reposicionamento ocorre num contexto de forte expansão da despesa global. As projeções apontam para que os gastos militares ultrapassem os 3,6 biliões de dólares até 2030, aproximando-se de 3% do PIB mundial. Mais relevante do que o volume é, contudo, a mudança qualitativa: os países estão a passar de metas mínimas para compromissos estruturais.

Na cimeira da NATO de 2025, foi definido um novo enquadramento que prevê não só 3,5% do PIB para defesa tradicional, mas também até 1,5% adicional para infraestruturas críticas, segurança digital e inovação. Esta segunda componente representa uma rutura significativa, ao direcionar investimento para áreas como redes energéticas, cabos submarinos ou capacidade industrial.

A inteligência artificial assume, neste cenário, um papel central. Mais do que uma ferramenta de produtividade, passa a funcionar como um elemento sistémico de identificação e correção de vulnerabilidades em sistemas complexos. O exemplo de modelos avançados de cibersegurança mostra como a manutenção contínua das infraestruturas digitais se torna parte integrante da defesa.

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Nos Estados Unidos, esta tendência já se reflete no orçamento federal. Para 2026, o Departamento de Defesa prevê um aumento significativo do investimento em investigação e desenvolvimento, incluindo uma linha dedicada exclusivamente a sistemas autónomos e inteligência artificial.

Também os conflitos recentes evidenciam esta mudança. A guerra na Ucrânia demonstrou que sistemas de baixo custo, como drones, podem neutralizar equipamentos muito mais caros, alterando a relação entre investimento e capacidade operacional. Esta assimetria está a redefinir prioridades, favorecendo soluções mais flexíveis, escaláveis e integradas.

Perante este novo paradigma, a questão central deixa de ser quanto será gasto em defesa, passando a ser onde esse investimento gerará valor duradouro. Segundo Franzin, esse valor tende a concentrar-se em áreas com elevada complexidade técnica, forte integração e elevados custos de substituição — características típicas de infraestruturas.

Apesar desta transformação, os mercados ainda refletem parcialmente a lógica antiga, avaliando muitas empresas de defesa como se continuassem dependentes de ciclos. No entanto, uma parte crescente do setor apresenta já características de infraestrutura, como receitas recorrentes e maior previsibilidade.

A conclusão é clara: a defesa está a tornar-se uma despesa estrutural e permanente. Num contexto em que a segurança é condição essencial para o funcionamento da economia, o investimento deixa de ser comprimível — e o valor concentra-se nos segmentos mais resilientes e difíceis de substituir.

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