A guerra já não se trava apenas no terreno. Hoje, desenrola-se também nos ecrãs dos telemóveis, nas redes sociais e no universo dos vídeos gerados por inteligência artificial. Um fenómeno recente, descrito pelo jornal Independent, revela a existência de um verdadeiro “exército digital” composto por soldados fictícios, criados por IA, que estão a influenciar a perceção pública sobre conflitos internacionais.
Soldados que não existem — mas emocionam milhões
Nos feeds das redes sociais, surgem vídeos de supostos soldados norte-americanos em cenários de guerra. Alguns aparecem em lágrimas, outros em momentos de camaradagem ou até em despedidas dramáticas antes do combate. Um desses exemplos é o “soldado Cole”, que surge visivelmente perturbado, apesar de não haver qualquer evidência de perigo real.
Outras figuras, como a “soldado Amelia”, aparecem cobertas de poeira em cenários devastados, relatando experiências de guerra altamente emocionais. No entanto, todos estes conteúdos têm algo em comum: não são reais.
Segundo o Independent, estes vídeos fazem parte de uma nova vaga de conteúdos gerados por inteligência artificial que exploram emoções como medo, tristeza e empatia para captar a atenção do público.
A guerra memética: narrativa, emoção e manipulação
Este fenómeno insere-se numa estratégia mais ampla conhecida como “guerra memética”, onde conteúdos digitais – muitas vezes sob a forma de memes ou vídeos curtos – são usados para moldar narrativas e influenciar opiniões.
A investigação da professora Tine Munk, especialista em criminologia digital, mostra que este tipo de abordagem já tinha sido observado no conflito entre a Ucrânia e a Rússia. No caso atual, a dinâmica repete-se entre os Estados Unidos e o Irão, com ambos os lados a utilizarem conteúdos digitais para reforçar as suas posições.
Enquanto a comunicação oficial associada a Donald Trump aposta em vídeos militares tradicionais e imagens impactantes de armamento, os conteúdos gerados por IA apostam numa estratégia diferente: criar ligação emocional com o público.
Influenciadoras de guerra e monetização digital
Outro elemento desta estratégia passa pela criação de influenciadoras digitais fictícias. Uma das mais conhecidas foi Jessica Foster, uma “soldado” gerada por IA que acumulou milhares de seguidores nas redes sociais.
A personagem surgia em imagens ao lado de figuras públicas como Vladimir Putin e até Lionel Messi, criando uma aparência de legitimidade. Para além disso, havia alegadamente conteúdos pagos associados à sua imagem, o que levanta questões sobre monetização e exploração deste tipo de tecnologia.
Muitas destas contas desaparecem subitamente ou revelam sinais de automatização, sugerindo que fazem parte de redes mais amplas de produção de conteúdo.
Entre propaganda e entretenimento
Apesar das preocupações com desinformação, nem sempre é claro se existe uma intenção política direta por trás destes conteúdos. Alguns criadores afirmam produzir estes vídeos apenas para entretenimento ou para aumentar o envolvimento do público.
Ainda assim, o impacto é real. A proliferação de vídeos hiper-realistas, associados a conflitos atuais, pode distorcer a perceção pública e dificultar a distinção entre realidade e ficção.
Segundo o Independent, esta nova realidade digital levanta uma questão essencial: será que conteúdos gerados por IA conseguem criar uma “realidade alternativa” mais envolvente do que as notícias tradicionais?
O futuro da guerra digital
Num contexto em que milhões de pessoas consomem vídeos curtos diariamente, a combinação entre inteligência artificial, emoção e atualidade cria um terreno fértil para a propagação deste tipo de conteúdos.
A chamada “guerra de memes” não mostra sinais de abrandamento. Pelo contrário, está a tornar-se uma ferramenta cada vez mais sofisticada e influente.
No final, a grande questão mantém-se: quem controla a narrativa num mundo onde até os soldados podem ser fictícios?
E, talvez mais importante, será que o público consegue distinguir entre o que é real e o que foi criado para parecer real?













