O estado do estado

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O covid19 levantou muitas questões de profissionalismo sobre a função pública. Nalguns casos demonstrou que existem serviços públicos que funcionam de forma perfeita e têm o cidadão no centro. Outros não, já trabalhavam pouco e agora têm uma desculpa para trabalhar menos. Vou dar um exemplo real: Renovei o meu passaporte há 6 meses atrás, agendei fora da minha zona de residência onde era mais rápido e tive um serviço de elevada qualidade na conservatória do registo civil de Santa Maria da Feira. Inclusive ouvi um colaborador deste serviço dizer, que só iria para casa quando todos os cidadãos tivessem resolvido o seu assunto, independente da hora. E sempre com um sorriso, urbanidade e boa educação. 

Neste momento, se quiser renovar o passaporte, não conseguimos agendar on-line no site do IRN (ou seja conservatória do registo civil ou loja do cidadão). Já nem deveria ser necessário agendar on-line pois os serviços públicos já deveriam receber os cidadãos sem agendamento, para tratar dos seus assuntos. Aliás são para isso que existem e somos nós que os pagamos. 

Pasme-se quando um familiar esteve ontem a tentar marcar on-line o agendamento da renovação do passaporte e não conseguiu, pois o site não permite. Tentou agendar por telefone e ninguém atendeu. A espera era de 29 minutos e ninguém atendia, mas aos 30 minutos caía a chamada. Dirigiu-se à conservatória do registo civil de Matosinhos, concelho onde devem estar localizadoa os piores serviços públicos do mundo (não apenas do país). Depois de muita espera e uma longa fila (que ainda se desculpa com o covid para não receber ninguém), foi informado que a funcionária pública (que já não tem de atender apenas os cidadãos pré-agendados, mas todos) já tinha atendido um cidadão (vou repetir, 1 Cidadão), pelo que já tinha cumprido a legislação e não iria atender mais ninguém durante todo o dia. Entre perguntas com respostas desagradáveis e de frete, a consequência foi de que não soube quando poderia tratar do documento e nem sequer quando ficaria pronto para levantar. A solução foi agendar no SEF do aeroporto devido à urgência (no século XXI de digitalização dos serviços, urgência aqui, significa 1 mês … lolll). Certamente Matosinhos e a sua conservatória civil (mas no serviço de finanças de Matosinhos é igual) não representam toda a função pública, mas devem ter juntado neste concelho todos os incompetentes nestes serviços, da função pública que existem. E ninguém avalia, classifica e despede funcionários públicos deste tipo: mal criados, incompetentes e que não trabalham. Arranjam esquemas para, respeitando a lei, não trabalharem. Que ainda se devem queixar de ganharem mal e que apenas têm tempo para tomar “10 cafés por dia”, pois de vez em quando têm ainda de atender estes “chatos dos cidadãos”. O risco é de generalizarmos e pensarmos que os funcionários públicos das conservatórias de registo civil são todos iguais, “uma nódoa”. Mas não são, há óptimos profissionais e devem ser estes e os seus sindicatos, bem como a hierarquia, exigir que estas “nódoas profissionais de Matosinhos” saiam da função pública, dando lugar a verdadeiros profissionais como os de Santa Maria da Feira. Os “chefes” que não o façam, que não identificam o problema, devem seguir o mesmo caminho. Mas não se pode despedir funcionários públicos, mesmo estes que ninguém aceitaria numa empresa! É verdade que o estado do estado só está assim porque nós deixamos, não reclamamos e permitimos que alguns incompetentes “sujem” a imagem de muitos bons funcionários públicos. Por isso dizemos que se calhar há demais, pois se trabalharem só uma percentagem de todos que existem, os outros (os incompetentes) são “higiénicos”. Não servem para nada, excepto para criarem obstáculos e exigir condições que não merecem. E volto a referir, os próprios funcionários públicos e os sindicatos deviam ser os primeiros a exigir que quem não serve, como os de Matosinhos que referi, “rua”! E não pensar apenas no corporativismo que os alimenta para continuarem a sobreviver, receber quotas e mostrar alguma representatividade para continuarem a sobreviver e ter horários reduzidos.

Havendo menos funcionários públicos, podemos pagar muito melhor aos que ficam, e acreditem que bem merecem, pois têm espírito de missão, competência e dedicação. Mas é “politicamente incorrecto” defender esta posição, pelo que nenhum político o vai fazer. Muito menos os sindicatos que vivem desta capilaridade. O certo é que “o rei vai nu” mas todos olham para o lado. Infelizmente sofrem os cidadãos de Matosinhos (e de tantos outros serviços) e os colegas dos incompetentes que aí existem e veem a sua imagem colada a estes imberbes. 


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