O “Eles” e o “Nós”

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

“Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar.”

General Galba – Séc III a.c.

Andamos há 2 meses sem ser governados, mas a remodelar o governo. E acredito que o Sr Primeiro Ministro apenas está mal rodeado pois é um PM competente. Apesar de não concordar com todas as políticas seguidas, com alguns discursos e rumos seguidos, mas foi um PM que conseguiu ultrapassar períodos difíceis e conquistar a confiança dos cidadãos e dos parceiros Europeus. Confiança, algo que demora imenso tempo a conquistar e 1 minuto a perder. Foi a confiança que gerou uma maioria absoluta há menos de um ano. Mas que se perdeu pela falta de avaliação política, por alguma “soberba” causada pela maioria absoluta, pela “embriaguez” do poder, pela incapacidade de ir buscar quadros com valor fora do secretariado nacional do PS (algo que cada vez vai ser mais difícil pois ninguém quer ficar ligado a este escândalo das nomeações que duram 26 horas), pelas escolhas pessoais, pela falta de escrutínio e responsabilidade de quem nomeia, por não existir reconhecimento e assumpção da responsabilidade quando se cometem erros.
A “accountability” será sempre, em último caso do Sr PM, mas a negligência é de quem escolhe e recomenda (nomeadamente do ministro da pasta). E o que está a acontecer é inaceitável mas fácil de identificar. Um líder é responsável por 5 funções: P.O.L.C.I.; ou seja Planear, Organizar, Liderar, Controlar e Integrar. E o Sr PM não está a liderar nem a controlar de forma eficiente, nem sequer eficaz.
Mas este “pântano” também está a aumentar na sociedade a clivagem entre “nós” (os cidadãos) e o “eles” (os políticos). Reforçamos a ideia de que todos os políticos são desonestos, nomeados pelo cartão partidário, incompetentes, que se aproveitam da política para enriquecer… e isso não é verdade! Há políticos assim. Mas acredito que a maioria dos políticos têm espírito de missão pública e respeito pela democracia, bem como pela responsabilidade que as funções governativas acarretam. Inclusive perdem rendimento por assumirem funções públicas. Mas ao generalizarmos a incompetência e falta de ética do “eles”, abrimos caminho para os discursos extremistas terem sucesso. Os partidos fora do arco do poder, de extrema esquerda ou direita, que começam a ser aceites como a “única tábua de salvação” para o país. E este fato da banalização da política, de desleixo e incúria, pode provocar um de dois cenários (ou ambos): um aumento da abstenção, falta de participação e interesse na vida política; ou a aceitar como verdade a demagogia dos discursos radicais, fáceis de entender, sem soluções para resolver os problemas mas simplórios a identificá-los.
Perde a democracia e o país. “Habituem-se”!!!


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